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Consumo

Taxa rosa: uma forma perversa de manutenção da discriminação de gênero

A taxa rosa, enquanto conceito político-econômico, é mais uma forma de aprofundamento das diferenças que criam abismos entre homens e mulheres, dificultando o alcance de uma independência e equiparação social e econômica

Publicado em 17 de Março de 2025 às 02:00

Públicado em 

17 mar 2025 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

O mês de março, ocasião em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é marcado por diversas atividades, entre elas muitas com caráter de conscientizar a sociedade, mas principalmente as mulheres do quanto ainda a opressão pela questão de gênero encontra-se enraizada e se apresenta das mais perversas e disfarçadas formas de discriminação e subjugação.
Uma delas, ainda pouco conhecida no Brasil, é a chamada 'pink tax' ou taxa rosa. A expressão refere-se um fenômeno econômico de mercado, que tem a prática de aplicar preços mais elevados para produtos e serviços destinados ao público feminino, em comparação a produtos similares destinados aos homens.
Apesar de a expressão carregar a cor rosa, a discriminação de preços por gênero não se restringe apenas a produtos cor-de-rosa, contemplando, também, o setor de serviços.
Se quiséssemos ser absolutamente rigorosos, nem sequer poderíamos classificá-la como uma “taxa”, que é um tipo de tributo instituído para remunerar um determinado serviço especial do Estado, como a taxa de coleta de lixo, por exemplo, considerando que não existe em nosso sistema tributário uma taxa rosa nem qualquer relação jurídico-tributária relacionada à cor de um produto.
Portanto, a pink tax não é um fenômeno tributário, mas sim mercadológico. Uma prática econômica que possui impacto bastante importante sobre as consumidoras, que sofrem os efeitos dessa prática, pagando mais caro pelo mesmo produto, e em muitas vezes, sem se atentar disso. O exemplo clássico é da lâmina de barbear cor-de-rosa que custa três vezes mais que a outra, igualzinha, mas azul.
De acordo com pesquisas realizadas em vários setores do comércio, como o de eletrônicos, quando há produtos praticamente iguais, nos quais só muda a cor ou a embalagem, as versões ditas femininas custam mais.
Uma pesquisa da Instituição de Ensino Superior da São Paulo - ESPM, em 2017, mostrou que as mulheres pagam, em média, 12,3% mais em produtos idênticos àqueles direcionados ao público masculino, “apenas por serem rosa”. E os percentuais variam de acordo com a categoria de produtos, chegando a 23% extras nos itens de vestuário bebê/infantil “de menina”, 27% no corte de cabelo e 26% em brinquedos.
O estereótipo massacrante de que mulheres gastam mais é descontruído quando se toma consciência de como o sistema opera. As mulheres não gastam mais. As mulheres, mesmo ganhando menos, pagam mais caro. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a mulher brasileira recebe, em média, 78% do que ganha um homem, isso sem aprofundar nas questões de diferenças sociais, raciais e outras tantas que tornam a relação ainda mais desigual.
E, some-se a isso, a tarefa imposta socialmente à mulher de cuidar da família, sendo às vezes a única fonte de renda da casa, e a pressão estética que leva a inúmeros serviços e procedimentos caríssimos.
A taxa rosa, enquanto conceito político-econômico, é mais uma forma de aprofundamento das diferenças que criam abismos entre homens e mulheres, dificultando o alcance de uma independência e equiparação social e econômica.
Consumo, compras, consumidor, consumismo
Mulheres consumidoras Crédito: Shutterstock
Outro fato que merece atenção é o viés discriminatório ancorado no machismo estrutural implicado na prática da taxa rosa. Em estudo realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) no Brasil, apresentou-se que mulheres tendem a comprar mais no impulso do que homens, assim justificando o aumento do preço de produtos para elas, pois elas comprariam mesmo com a alta variação do preço.
Outra justificativa encontrada pela Escola Superior de Propaganda e Marketing do Brasil refere-se ao fator sociológico histórico, considerando que por volta dos anos 30 as lojas eram feitas voltadas para as mulheres, já que era mais comum que enquanto os homens fossem ao trabalho, as mulheres donas de casa saíssem as compras. E ainda hoje avalia-se que lojas continuam direcionadas para as mulheres, assim sendo um resquício do machismo estrutural.
É preciso que parta das mulheres consumidoras a mudança no mercado. Enquanto se concordar em pagar mais caro por uma lâmina de barbear rosa, estarão contribuindo para a perpetuação dessa prática tão perversa.
O bem-estar e conforto para homens e mulheres deve ser igual, tanto quanto à qualidade, tanto à quantia que se paga.
Quando se fala de machismo estrutural, não se trata de mero discurso ou narrativa panfletária e superficial, mas de práticas arraigadas na sociedade que são naturalizadas e mantenedoras da discriminação de gênero.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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