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Censo 2022

Quando o Censo revela face social que está além dos dados estatísticos

A forma como se recebe em casa o trabalhador e trabalhadora do Censo revela muito mais sobre o recenseado do que as respostas consignadas no formulário

Publicado em 26 de Setembro de 2022 às 01:00

Públicado em 

26 set 2022 às 01:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

O cotidiano dos recenseadores do IBGE contratados para realizarem a coleta de dados para o Censo 2022 tem sido permeado por graves violações de direitos.
De acordo com matéria veiculada pela A Gazeta na semana passada, as violações passam por pressões de supervisores, atraso de pagamento de salários, ofensa de moradores, assédio sexual e ameaça de estupro.
De denotada gravidade, a situação revela uma face perversa da sociedade e do sistema de garantia de direitos do trabalho, que se encontra arraigada no tecido social e produz as mesmas vítimas de sempre.
Quando não recebem os salários em dia e ao sofrerem pressão de sua chefia, a ambiência e as condições de trabalho são aviltadas. Pessoas que se colocam à disposição para realizar um trabalho que possui dificuldades naturais adversas e, lado outro, é necessário para se construir indicadores para pensar políticas públicas, se submetem a condições inóspitas.
Com isso, antes de revelar uma situação flagrante de agudização da precariedade de vida da maioria da população, por meio de números e gráficos, o Censo 2022 acaba por desvelar a essência de uma sociedade que desidrata em seus valores humanos e coletivos, mantendo-se fiel às raízes constitutivas de um sistema violador.
Quando um trabalhador do Censo, com salário atrasado e pressionado pela sua chefia, ao chegar em uma residência é recebido com ofensas, assédio e ameaça de estupro, temos a concretização de uma sociedade que contribui para o momento que hoje vivemos, de acirramentos e polarizações, para além dos dados socioeconômicos que serão extraídos.
O levantamento de dados objetivos sobre identificação de domicílio, núcleo familiar, características do domicilio, identificação étnico-racial, registro civil, educação, trabalho e renda, mortalidade, nupcialidade, fecundidade e religião acaba por ser completado pela situação vivenciada pelos recenseadores no momento da coleta. São assim os dados subjetivos do Censo 2022.
Ao mergulhar na capilaridade da vida das pessoas, para além do que é dito, o que é vivenciado diz muito mais, no sentido de que as condutas e posturas das pessoas,  públicas ou privadas, contribuem para a constatação de uma sociedade preconceituosa, violenta, misógina e exploradora.
A realização do Censo de 2022, antes mesmo da análise dos dados colhidos, tende a consolidar o “mito da cordialidade brasileira” em seu confronto ontológico. Importante compreender que há uma cordialidade relativa. Uma cordialidade parcial, tendo como pano de fundo o interesse, entre pessoas de uma mesma hierarquia social.
Entretanto, diante das pessoas vulnerabilizadas – mulher, criança, idoso, negros, pobres, índios -, essa “cordialidade de aproximação” é abandonada. Aos extermináveis, torturáveis e aprisionáveis, não existe nem postura de humanidade, nem de cordialidade no sentido do amor.
O que se destaca é uma cordialidade no sentido do ódio, assumindo aqui a cordialidade no sentido etimológico de Sérgio Buarque. Amor e ódio nascem do coração. Nesse sentido, imprescindível compreender a “cordialidade brasileira” a partir das duas heranças históricas e constitutivas da nossa cidadania: a colonização e a escravidão.
Essa é a face macabra do Brasil que o Censo de 2022 de saída já revela, ao expor as nossas doloridas raízes, mesquinhas e perversas, que irromperam o solo de nossa vida, privada e pública, de forma violenta desde 2013 e contribuíram, de sobremaneira, para o momento que vivemos há 5 anos.
Todos nós fazemos parte disso. Resta saber de que forma queremos ser lembrados por aqueles que nos sucederão. Como ignição de processos de ódio e conflito ou resistência e protetores dos valores da democracia e direitos humanos. A escolha é de cada um e cada uma. A forma como se recebe em casa o trabalhador e trabalhadora do Censo revela muito mais do recenseado do que as respostas consignadas no formulário.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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