A frase “o mercado está nervoso” é empregada de forma recorrente em algumas situações especificas. Algumas delas: quando há declaração de autoridades constituídas, divulgação de fato ocorrido na institucionalidade do pode executivo, em meio a pesquisas eleitorais. Contudo, o “mercado” não reage, nem positiva e nem negativamente, quando há uma violação grave de direitos humanos. Essa premissa é importante, pois de certa medida, comprova o pensamento de parte da sociologia econômica no Brasil.
De prima facie, importante compreendermos, de forma superficial, que mercado financeiro é o universo que envolve as operações de compra e venda de ativos financeiros, entre eles valores imobiliários e câmbio. Funcionam em uma lógica de aglutinar compradores e vendedores num mesmo ambiente, facilitando a interação.
A questão do trabalho nas instituições financeiras é de fácil percepção quando, à revelia do crescimento do valor e da influência das instituições financeiras no desenvolvimento da economia mundial, não há o reflexo na contratação de mais trabalhadores. Lado outro, quando a lente é jogada sobre a “elite” dos mercados, percebe-se que existe em curso o surgimento de uma nova “elite internacional”, formada dentro das instituições, de similar origem e cultura, que reproduz a separação entre quem comanda o processo e quem opera para que o mercado consiga funcionar. Dessa forma, agudizam-se desigualdades, mesmo que imperceptíveis, considerando a existência de mecanismos e ligações difíceis de serem percebidas
Esse é um tema ainda pouco visitado pela Sociologia, considerando que existem escassas produções sobre o que forma os mercados financeiros, uma vez que eles são uma instituição em constante mudança, com poucos reflexos palpáveis na organização social e instituições tradicionais.
Roberto Grun, uma das referências quando se trata em sociologia econômica no Brasil, em seu livro “Decifra-me ou te devoro: o Brasil e a dominação financeira’, tomando por base a interlocução teórica entre a sociologia política e sociologia da cultura, aprofundando de forma analítica sobre os sentidos da ação relacional, considera a cultura e a sociedade como lócus empíricos para compreender a economia.
O autor trabalha uma hipótese na contramão do que existe, de maneira contraintuitiva, no sentido de que a dominação das finanças é um fenômeno cultural. Invertendo o raciocínio cotidiano, busca demonstrar que se trata, fundamentalmente, de uma questão de consentimento. A legitimidade da dominação financeira é que torna cada vez mais ricos os financistas e demais beneficiários dos “mercados”.
Talvez seja por isso que o “mercado”, ainda tão pouco compreendido pela “geral”, mesmo que essa pague pelos seus arroubos, considerando que tudo reflete no cotidiano de todas as pessoas, precise de um calmante quando algo não o agrada, mas não se afeta quando a fome assola milhões de pessoas.
Segundo a história, “decifra-me ou te devoro” era o misterioso ultimato da esfinge de Tebas na antiga Grécia. Conta-se que a mesma observava atentamente cada viajante que passava pela cidade. Ao se deparar com a esfinge, o transeunte precisava resolver um enigma que poderia indicar o fim de sua vida ou recomeço dela.
Precisamos aprender a decifrar o “mercado”, antes que ele acabe com a vida dos pobres e deixe mais rico os mesmos de sempre.