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Saúde

Janeiro Branco: a saúde mental entre o diagnóstico e a penumbra

Vivemos em um tempo em que a saúde mental se encontra na centralidade das questões sociais contemporâneas. A medicalização irrefletida e a ânsia irrefreada de viver feliz o tempo todo atropelam as fases do viver

Publicado em 12 de Janeiro de 2025 às 23:00

Públicado em 

12 jan 2025 às 23:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

A vida é feita de efemérides, que são datas que remetem a fatos que marcam a história da humanidade, de uma sociedade ou de uma comunidade. Ao longo do ano são muitas as efemérides que temos, e os meses que são dedicados a um assunto ou questão acabam se encaixando nesse conceito. Nesses meses, os enfrentamentos de problemas que afligem a vida das pessoas são transformados em ações ou campanhas, com objetivos de debater, conscientizar e resolver.
O primeiro mês do ano, no Brasil, é conhecido como “Janeiro Branco”. Durante trinta dias, campanhas voltadas para a conscientização e promoção da saúde mental e emocional são realizadas. Criado em 2014 pelo psicólogo e escritor mineiro Leonardo Abrahão, tem o objetivo de estimular reflexões sobre a importância de cuidar da mente, além de incentivar práticas que favoreçam a saúde mental.
No ano passado, no aniversário de dez anos da iniciativa, a campanha se tornou oficial, por meio da instituição da Lei Federal 14.556/23. O termo “Janeiro Branco” simboliza o início do ano, quando muitas pessoas traçam metas e fazem reflexões sobre mudanças e recomeços. Assim como uma folha em branco, o mês é uma oportunidade para reescrever histórias, planejar o futuro e dar atenção à saúde mental, muitas vezes negligenciada em outros períodos, atropelada pelo trabalho e ignorada diante de outras urgências da vida material.
Janeiro é o mês em que as pessoas estão mais propensas a fazer planejamentos e mudanças em suas vidas. Um mês dedicado a reflexão. Um momento de renovação é ideal para fomentar debates sobre saúde mental e destacar a importância de incluir o cuidado emocional nos planos de cada indivíduo.
Vivemos em um tempo em que a saúde mental se encontra na centralidade das questões sociais contemporâneas. A medicalização irrefletida e a ânsia irrefreada de viver feliz o tempo todo atropelam as fases do viver. O mundo atual somente deseja os “altos” da vida, e aniquila os “baixos”, esquecendo-se que a vida é composta pelos dois estágios.
E, com isso, vive-se entre o diagnóstico e a penumbra. Muitas pessoas que buscam ajuda são transformadas em um diagnóstico e perdem sua identidade. Outras tantas, para não virarem “um diagnóstico”, não buscam ajuda e suportam suas dores, teatralizando para o mundo o bem-estar, que é exigência da sociedade. Permitem-se a viver nas sombras.
Psicólogo
Terapia Crédito: Shutterstock
Frente a esse dilema emerge a necessidade de sensibilizar a sociedade para temas como depressão, ansiedade e outros transtornos psicológicos que, muitas vezes, ainda são tratados como tabus. As campanhas buscam romper barreiras, promovendo uma cultura de aceitação e acolhimento em relação às questões emocionais, para que a vida brote das fendas de sofrimento que afligem a alma.
Iniciativas como palestras, rodas de conversa e oficinas, em diversos ambientes de convivência, têm colaborado para ampliar a campanha. Conscientizar as pessoas de que saúde mental é tão importante quanto a física deve ser prioridade, em todas as sociedades, principalmente na nossa, em que a qualidade de vida tem sido afetada, que a violência é uma das consequências da instabilidade emocional das pessoas e que o sofrimento humano silencioso eleva as taxas de autoextermínio.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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