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Colônia dos Excluídos

Hanseníase e o ideal higienista e segregatório da sociedade

A reportagem, de denotado detalhe e capricho na pesquisa, permite pensar a sociedade que, há muito tempo, busca políticas públicas que violam os direitos humanos

Publicado em 30 de Janeiro de 2023 às 00:10

Públicado em 

30 jan 2023 às 00:10
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

A repórter Iara Diniz realizou importante reportagem sobre a questão da hanseníase. Com o título de “Colônia dos Excluídos”, a matéria divulgada na semana passada convida a sociedade a refletir sobre a questão no mês dedicado a esse tema, mas vai além e mergulha em temas importantes e atuais, como a segregação e a internação compulsória.
A importância da reportagem, de denotado detalhe e capricho na pesquisa, permite pensar a sociedade que,  há muito tempo, busca políticas públicas que violam os direitos humanos para afastar do convívio social os indesejáveis, causando danos permanentes na vida familiar e social.
A inauguração da colônia, com toda pompa e circunstância, é datada de 1949, um ano após a Declaração Universal de Direitos Humanos. Quando o mundo já indicava que a dignidade da pessoa humana precisava estar na centralidade de tudo na vida, incluindo as políticas de estado, no Brasil, e no Espirito Santo, adotava-se uma prática de segregação e higienista com pessoas portadoras de hanseníase.
Ao ler a reportagem, nos damos conta da monstruosidade que reside dentro do ser humano, que consegue atribuir ares de benfazejo e legalidade a uma prática repulsiva.
Especial hanseníase, Hospital Pedro Fontes
Ex-paciente Crédito: Fernando Madeira
Na época existia uma Diretoria de Higiene do Estado, que após fazer um levantamento dos casos de hanseníase, iniciou em 1935 a Colônia de Itanhenga. Uma cidade dos excluídos, com toda a estrutura para as pessoas não saírem do local. Contava, inclusive, com prefeito e delegado, de acordo a reportagem, que eram escolhidos entre as pessoas segregadas.
Diante do diagnóstico, a internação era compulsória. Filhos eram separados dos pais, famílias eram desfeitas, laços eram abruptamente rompidos. A preocupação era com os sãos da sociedade, e não com os doentes, como bem assevera a matéria.
Esse ideal de impor uma compulsoriedade na segregação de pessoas que estão fora dos “padrões”, naquela época e ainda hoje, guardam uma similitude gigantesca. Aqueles que “não tem uma boa aparência” e “não cheiram bem” devem ser afastados com práticas higienistas que ferem de morte o princípio da dignidade da pessoa humana.
Essas práticas ainda hoje existem em nossa sociedade, tendo como alvo os “leprosos” da atualidade: as pessoas que possuem relação abusiva com as drogas, as pessoas com questões de saúde mental, a população em situação de rua, entre outros.
Naquela época e hoje a palavra-chave é o acolhimento, sendo necessário compreender que, em casos de enfermidade física ou mental, a pessoa não é o diagnóstico. É preciso conhecer, por meio da ciência, as condições de uma enfermidade para não se produzir violações de direitos humanos, submersa no discurso do bem social.
Somente assim teremos condições de avançar para uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde caibam todas as pessoas, sendo indiferente a sua condição de saúde ou social. Lado outro, continuaremos reproduzindo espaços de segregação, que também são espaços de violação, como a Colônia dos Excluídos de Itanhenga.
Parabéns Iara Diniz, é olhando para o retrovisor da história que podemos corrigir o presente e ter uma sociedade mais justa e igualitária no futuro.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Pública

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