A situação vivenciada por mulheres dentro de uma sociedade patriarcal é de permanente violência, nas suas mais diversas formas. Da sutil fala até o feminicídio, as mulheres suportam durante a vida inteira as dores que, na maioria dos casos, é relativizada, quando relatadas.
A fala de uma mulher violada não encontra o devido acolhimento imediato. Inúmeros os casos em que um “relato-denúncia” precisa ser confirmado e provado. O grito de socorro é colocado em suspenso, e compreendido a partir do agressor. No tribunal da perpétua violação de uma sociedade machista, encontra-se a vítima, que em uma dimensão prévia é desacreditada, e somente com a irrefutabilidade do fato ou publicidade do ato recebe a “autorização’ para ser vítima no sistema de segurança e justiça.
Para se enfrentar essa questão, tem-se tentado implantar mecanismos para vencer todas essas estruturas e práticas, que acabam por violar mais ainda as mulheres que são vítimas. Da criação de programas específicos até mudanças incrementais nos sistemas de justiça e segurança, vários têm sido os caminhos para fazer cessar o repertório de atrocidades a que são submetidas.
Esses movimentos tendem a desvelar mais violações a que são submetidas mulheres no seu cotidiano, mesmo que estejam anestesiadas e parindo. Foi isso que aconteceu no Hospital da Mulher Heloneida Studart, no Rio de Janeiro, no dia 11 de julho, quando, um médico, após reincidir várias vezes na conduta criminosa hedionda, em estuprar mulheres sedadas no momento do parto, foi alvo de uma inteligente operação para flagrá-lo, capitaneada por mulheres profissionais da saúde, que merecem nossa admiração e imitação.
Essas profissionais atuaram talvez, mesmo sem saber, intuídas pela escritora, jornalista, política e defensora dos direitos das mulheres, que dá nome ao Hospital em que ocorrera o crime. Heloneida Studart foi uma das principais articuladoras do Centro da Mulher Brasileira, considerada a primeira entidade feminista do Brasil.
A luta daquelas que nos antecederam deve servir de inspiração não somente para homenagear, atribuindo nomes em locais ou logradouros, mas mais do que isso, ser a tônica para indicar as medidas que devem ser adotadas para enfrentar todo e qualquer tipo de violação de direitos, em qualquer lugar ou cenário.
A antropóloga Veronique Nahoum-Grappe nos alerta que os estupros sistemáticos que ocorrem em tempos de guerra visam destruir populações martirizadas. E que é no ventre das mulheres que se encarna a loucura genocida dos homens. Nesse sentido, é imperativo se compreender o corpo feminino como o território primeiro violado em situações extremas. E essa extremidade está dada no momento atual, em que eclodem casos monstruosos de violência contra a mulher.
Da mesma forma, o fato criminoso hediondo aqui abordado, compõe a liturgia das estruturas de opressão, que são compostas e sustentadas pelo sexismo e patriarcado, e que violam os corpos das mulheres, que são repletos de identidades e significados. Trata-se de um crime de profanação contra todos os corpos femininos, dado que, ao violar uma mulher, se viola todas.
E se houver alguma dúvida de que assim o é, um excelente marcador para comprovar isso, naquela lógica de que as falas das mulheres precisam ser comprovadas, é a constatação de que a rede social do estuprador da semana teve um aumento significativo. Alguns por curiosidade, outros por solidariedade, mas fato é que essa ação irrefletida em tempos de popularidade instagramáveis medidos por “K” garantiu a esse violador sua fama por uma sociedade que ainda aduba o terreno para violações e se cristaliza na coautoria do crime.
As bravas enfermeiras de Heloneida se colocaram na contramão dessa sociedade patriarcal e sexista, mostrando que cada um de nós pode fazer a sua parte para enfrentar todo e qualquer tipo de violação.