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Sociedade

Entre o medo e a confiança: as questões da sociedade com a polícia

O Datafolha divulgou uma pesquisa em que 51% dos brasileiros têm mais temor na polícia do que confiança. A pesquisa teve alcance considerado, ao abranger 113 municípios

Publicado em 29 de Dezembro de 2024 às 23:00

Públicado em 

29 dez 2024 às 23:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra
A atuação das forças policiais no Brasil sempre foi um problema social, considerando que os índices de letalidade policial não passam ao largo dos analistas de segurança pública e organismos internacionais e são sentidas na pele por dezenas de comunidades periféricas, nas quais produzem um número considerável de vítimas.
No ano que se encerra, vários episódios de violência policial, alguns deles com morte, foram registrados em todo país, com destaque para os ocorridos em São Paulo. Importante considerar também que muitos outros tantos episódios que ocorrem diariamente, principalmente em territórios em que as pessoas são pobres e pretas, podem ter ficado sem registros.
O medo das pessoas em denunciar e a falta de capacidade das instituições em ler as ocorrências com as lentes da racialidade e desigualdade social dificultam o enfrentamento da questão da forma adequada, em um país que ainda vive sob a sombra da escravidão e da ditadura militar.
No domingo (22), o Datafolha divulgou uma pesquisa em que 51% dos brasileiros têm mais temor na polícia do que confiança. A pesquisa teve alcance considerado, ao abranger 113 municípios.
Digno de nota é o fato de os dois itens da pesquisa, medo e confiança, possuírem estruturas e raízes axiológicas diferentes. O medo consiste em um estado emocional que surge em resposta à consciência perante uma situação de eventual perigo. A ideia de que algo ou alguma coisa possa ameaçar a segurança ou a vida de alguém faz com que o cérebro ative, involuntariamente, uma série de compostos químicos que provocam reações que caracterizam o medo. Já a confiança consiste em uma característica da personalidade e pode ser entendida como acreditar, estar seguro ou ter certeza sobre algo ou alguém.
No entanto, curioso observar que as duas palavras estão juntas no título de uma das obras de Bauman, "Confiança e Medo na Cidade", em que o autor traz uma discussão sobre como a cidade do nosso tempo se transformou em um território de medo e insegurança, o que teria levado a arquitetura das metrópoles a tornar-se defensiva, com bairros fechados, grades, muros e uma série de mecanismos que restringem o contato com o outro. A criação de um espaço urbano que promove a segregação, e não o encontro de diferenças.
A pesquisa aponta que o temor tem dado parecido quando o recorte é de gênero, com 56% entre mulheres e 52% entre homens. Entremente, os números se tornam mais discrepantes quando o assunto é por raça, já que 59% dos pretos assumem ter mais medo do que confiança, enquanto 45% brancos seguem a mesma linha.
A pesquisa traz outras análises que apontam a necessidade de se rever a atuação das forças policiais, e deverá ter como medida primeira a mudança de concepção do que é ser policial em uma sociedade democrática, mas com herança escravocrata e ditatorial. E ainda conversão de formação.
Giroflex de viatura da Polícia Militar
Giroflex de viatura da Polícia Militar Crédito: Wilson Rodrigues
O trabalho de mudança da relação polícia e sociedade é condição imprescindível para reestabelecermos outros parâmetros, mas também devendo rasgar o véu da história e resgatar algo que o sociólogo Du Bois chama de dupla consciência, que consiste em haver uma incompatibilidade entre ser cidadão e ser negro na mesma cidade.
Esse pensamento, ainda do século 19, aponta que é preciso colocar na mesa, sem pudores ou tentativas de encobrimentos, quantas polícias nós temos para quantas sociedades. E como cada uma funciona e atua.
Ignorar essas questões é continuar lamentando a cada tragédia e indicar as mesmas soluções erradas, que acabam por produzir mais violência.
Conhecer a vítima e o policial, ambas pessoas humanas, e as suas relações com as origens e destinos pode ser o início para reconstruirmos os laços de confiança e termos uma sociedade mais tranquila para todo mundo.

Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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