Era 14 julho de 2013, quando um homem negro, nascido e criado na maior favela do Brasil, a Rocinha, foi visto pela última vez, após ter sido detido por policiais militares e conduzido à uma UPP, durante uma operação batizada de Paz Armada, que mobilizou cerca de 300 policiais.
Um caso clássico de desaparecido forçado em que agentes do Estado são apontados como responsáveis, o que acarretou a condenação na esfera criminal de parte do efetivo que estava atuando naquele dia, mas absolveu outra parte. E ainda culminou com a condenação do Estado a indenizar a família da vítima, em milhões de reais.
O Caso Amarildo, como é internacionalmente conhecido, completa dez anos. Mesmo com a condenação criminal de policiais por abuso de autoridade e violência policial, e ainda determinada pela justiça o montante pecuniário a ser recebido pela família, é um caso que está longe de acabar, considerando que os seus restos mortais ainda não foram localizados, encontrando-se aberto o processo de vivência de luto, dignidade da vítima e repouso da memória.
E, ademais, o Caso Amarildo nos ensina como o poder do perigo de uma história única precisa ser confrontado com estratégias de sobrevivência de uma população que, durante a formação do estado e sociedade brasileira, foi e é cotidianamente violada. Se a “história oficial” contada pelos “agentes do Estado” que detêm a “fé pública” tivesse a prevalência de verdade, a “versão de encobrimento” de um crime bárbaro que, infelizmente, é recorrente no Brasil, Amarildo teria sido detido após um “arrastão” ocorrido nas proximidades da favela e teria sido liberado após a averiguação. Mas nunca mais retornou para casa ou foi visto.
Entrementes, não foi isso que aconteceu. A “história oficial”, certamente relatada em relatórios da operação prescindiu de verdade e esbanjou tentativas para encobrir a realidade dos fatos. Os movimentos dos familiares, da sociedade civil organizada, de artistas e personalidades, foram imprescindíveis para que o Caso Amarildo não virasse mais um de desaparecimento forçado pelo Estado, que caem no esquecimento, pois são considerados matáveis, em um processo de negação da vida e da dignidade da pessoa humana daqueles que não pertencem a elite, não tem poder econômico, não tem capital político e não tem a cor da pele alva.
A história de Amarildo é um clássico. Descendentes de pessoas escravizadas, que serviram como objeto ao Estado e sociedade durante séculos, e quando foram contemplados com uma suposta liberdade, foram empurrados para encostas íngremes, sem acesso a direitos e condições de vida digna, que tiveram que inventar formas de sobreviver, mas quando se dão conta ainda são caçados e exterminados, ou melhor, desaparecidos como ninguéns.
Essa história está longe de terminar.