Uma mulher, negra, periférica, cria da Comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, e oriunda das cotas universitárias. Foi assim que a nova ministra de Igualdade Racial, Anielle Franco, se apresentou na cerimônia de assunção do cargo no dia 11 de janeiro de 2023.
Em meio a uma cerimônia disputada e dentro das dependências do governo federal, ainda com as marcas da depredação que marcaram o domingo anterior, a nova ministra disse em alto e bom tom a que veio. Não economizou palavras e chancelou o momento como um dos mais significativos do atual governo, que assumiu com desafios nunca antes vistos, no que concerne ao reestabelecimento de direitos e garantias individuais, recuperação da economia e reconstrução da imagem do Brasil perante à comunidade internacional.
Anielle assume uma das pastas mais importantes, do ponto de vista da reparação histórica e de direitos, considerando o legado de violações que as pessoas não brancas suportam desde sempre.
Importante compreender o que Anielle representa. Ainda pequena encontrou no esporte o caminho para driblar a pobreza e a dureza de uma vida árida sem direitos. Alcançou, ainda adolescente, uma bolsa esportiva para estudar nos EUA, onde permaneceu por anos, período em que teve a oportunidade para estudar em importantes escolas historicamente negras, obtendo toda a base teórica do pensamento antirracista.
Retornando ao Brasil, por meio das cotas formou-se Inglês, Literatura e Jornalismo, e em seguida, se tornou mestre em Relações Étnico-Raciais.
Além de atuar como professora, Anielle sempre participou da vida política de sua irmã. Após o assassinato de Marielle, em 14 de março de 2018, Anielle fundou o Instituto Marielle Franco, dando continuidade ao legado que foi interrompido de forma cruel e violenta.
Com múltiplas atividades, Anielle ampliou de forma surpreendente a luta de sua irmã, e mesmo em meio à dor irreparável da perda e ainda durante o período de negacionismo e violações que o Brasil atravessou entre 2019 a 2022, foi capaz de realizar a potente e verdadeira frase: “Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes”.
Essa é Anielle Franco, aquela que em 2003, no primeiro governo Lula, foi cotista, hoje, chega ao cargo de ministra de Estado, com toda legitimidade e pronta para assumir um lugar que antes era reservado somente aos homens brancos burgueses.
É por isso que políticas públicas para todas e todos assustam tanto.
Hoje o presidente da República eleito democraticamente compõe a sua equipe de governo por muitas e muitos que ele garantiu formação e espaço no passado, por meio de políticas públicas de inclusão. Ele há vinte anos semeou, e agora vemos florescer.