“Não sou de São Paulo / Não sou japonês / Não sou carioca / Não sou português / Não sou de Brasília / Não sou do Brasil / Nenhuma pátria me pariu” (“Lugar Nenhum”, Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto / Charles Gavin / Tony Bellotto)
Vitória, a capital do Espírito Santo e carinhosamente chamada de “cidade presépio” por muitos cidadãos capixabas, acaba de apagar velinhas e completar 470 anos de história.
E ela pode mesmo comemorar, afinal foi considerada a segunda melhor capital brasileira para se viver no índice Desafios da Gestão Municipal de 2021, realizado pela Consultoria Macroplan. Mas mesmo se considerarmos o ranking geral, no qual a análise leva em conta os 100 maiores municípios brasileiros, Vitória encontra-se na destacada décima posição.
Já no Ranking Connected Smart Cities 2021, elaborado pela Urban Systems (empresa especializada em pesquisa sobre cidades) em parceria com a Necta e divulgado dias atrás, Vitória ficou no 5º lugar entre os 677 municípios brasileiros com mais de 50 mil habitantes.
Esta cidade que me acolheu, onde vim morar após sair do Rio de Janeiro há mais de duas décadas, já tem mesmo se mostrado atraente para muita gente. Dotada de bela geografia, com morros contrastando com suas praias e ilhas, um clima ameno e ótima localização em termos estratégicos, o que potencializa sua economia voltada para o comércio exterior em tempos de globalização, a capital espírito-santense vai deixando aos poucos aquela imagem provinciana e tornando-se uma cidade cosmopolita.
Na verdade, trata-se de um fenômeno irreversível. As cidades do terceiro milênio são cada vez mais lugares cosmopolitas, pois abrigam não só aqueles que ali nasceram, mas pessoas vindas de várias partes do mundo, seja de regiões vizinhas, seja de países distantes.
Há quem faça disso uma incrível oportunidade de viver onde quiser, já que o trabalho remoto aparentemente também veio pra ficar. Uns até fixam residência numa outra cidade, num outro país, mas têm aqueles que se mostram verdadeiros nômades do século XXI, não permanecendo muito tempo no mesmo lugar.
Infelizmente, nesse processo não estão apenas aqueles que querem migrar para outras cidades em busca de novas oportunidades, atraídos por experiências de vida distintas daquelas oferecidas pela terra natal, pois a questão dos refugiados também é algo presente no mundo contemporâneo. Desde os venezuelanos na fronteira brasileira, passando pelos latino-americanos que tentam entrar nos EUA através do México, além do povo sírio que, fugindo da guerra, arriscam-se pelo Mediterrâneo em direção à Europa, ainda temos agora os milhares de afegãos que buscarão escapar da opressão do Talibã.
Diante de tudo isso, é certo que as cidades, que sempre foram resilientes ao longo da história, terão que novamente se adaptar à nova realidade que é estarem abertas à contribuição dos seus novos moradores, seja qual for o motivo da migração destas pessoas.
Este, aliás, foi o tema de um artigo recente do Financial Times sobre Viena, que tem sofrido grande mutação nos últimos 30 anos em função da chegada de imigrantes de diversas nacionalidades. Uma transformação que fez da cidade um lugar mais agradável para se viver, um lugar com maior riqueza cultural.
NOVOS TEMPOS
As cidades mudam porque as pessoas mudam. Daí que se pode também dizer que tudo na vida tem um ciclo, sendo necessário, em determinadas ocasiões, realizar algumas mudanças de rumo, adaptando-se a novos contextos.
Apesar das inflexões, que abrem novas perspectivas, as conquistas anteriores que moldaram a história dos lugares e das pessoas não precisam ser abandonadas, pois elas moldam nosso caráter e orientam qual caminho seguir.
Venho produzindo artigos semanalmente para A Gazeta há alguns anos, onde expressei minha opinião sobre diversos assuntos, muitos deles de caráter técnico, tratando de questões relacionadas às cidades, como é o caso da mobilidade urbana ou do mercado imobiliário, por exemplo.
Mas alguns deles tiveram um caráter mais próximo de uma crônica, enquanto que outros seguiram em outra linha, numa espécie de sociologia urbana, focando no comportamento das pessoas sob determinadas situações.
A gente escreve para expurgar nossos demônios. Mas escrever também é um modo de sobreviver. Ou, como li em algum lugar, “escrevemos para que outros saibam que não estamos sozinhos”.
Dito isso, resolvi desacelerar um pouco, diminuir o ritmo, porém sem deixar de produzir os textos. A ideia é apenas mudar a periodicidade deles e assim, a partir de agora, os artigos serão mensais.
Será também uma oportunidade de refletir mais sobre certas questões.
Bem, é isso! Então pessoal, até o mês que vem!