O recente incêndio na Catedral de Notre-Dame em Paris, que comoveu milhões de pessoas em todo o mundo, suscitou vários debates, entre eles o volume de doações privadas para a reconstrução da edificação, o que se confrontou com o que foi arrecadado pelo Museu Nacional no Rio de Janeiro; a repercussão midiática das chamas ardendo no templo cristão em comparação com a catástrofe causada pelo ciclone Idai, que deixou milhares de mortos, doentes e desabrigados em Moçambique, Zimbábue e Malauí, na África; o lançamento de um concurso internacional de arquitetura para reconstrução da cobertura e da flecha da igreja parisiense ou simplesmente restaurar a obra tal como ela se encontrava até a destruição parcial (e já até apareceram ideias, como a do arquiteto britânico Norman Foster, propondo vidro na cobertura e na flecha); ou, até mesmo, a impotência do homem diante da força dos elementos da natureza como são o fogo e a água.
Uma questão, contudo, que aparentemente não foi abordada pela imprensa ou pelas redes sociais é como se ergue ou se estabelece um monumento histórico como aquele, de tal modo que possamos saber se nos dias atuais seremos capazes de realizarmos construções monumentais que sobrevivam vários séculos e alcancem relevância afetiva, tal qual uma Notre-Dame, para as futuras gerações.
Num mundo cada vez mais efêmero e instantâneo, ansioso pelas novidades e lançamentos tecnológicos, descartável, como pensar símbolos materiais longevos e que se tornem patrimônio respeitado por nacionalidades, crenças e valores culturais diversos? Nesse ponto, é importante lembrar que o modernismo, estilo hegemônico durante boa parte do século XX, ainda conseguiu produzir monumentos, mesmo que para muitos eles tenham causado estranheza ou rejeição.
Já no Brasil atual, da crise econômica que insiste em permanecer, do fracasso e da decepção com a Copa de 2014 (não só em relação à Seleção, mas também com o destino de alguns dos estádios construídos e que hoje se encontram abandonados), do embate intolerante entre os diversos grupos sociais que compõem o povo brasileiro ( miscigenado, multicultural) e, por que não?, de um novo modelo de governar que propõe o corte radical na verba de tudo aquilo que se considera supérfluo (e aí é só uma questão de escolha arbitrária sobre o que deve ou não ser cortado), até por quê, como dito no início, a situação econômica continua ruim e não resta outra opção a não ser reduzir despesas; enfim, com tudo isso e um pouco mais, não será por iniciativa do governo (quaisquer que sejam as esferas, isto é, se é federal, estadual ou municipal) que novos monumentos serão erguidos.
Por outro lado, um monumento religioso como a Catedral de Notre-Dame é obra do povo francês católico, ainda que tenha sido referendada pelo governo laico, que a protegeu legalmente como patrimônio nacional. Não por acaso, vem da França a ideia de patrimônio histórico tal como se conhece hoje, e que tem no livro “A Alegoria do Patrimônio” de Françoise Choay sua conceituação basilar. Contudo, tanto Paris quanto a França tem no turismo cultural uma importante fonte de arrecadação, daí que o patrimônio também é visto como mercadoria.
Porém, é interessante considerar que, se muitas das obras que hoje consideramos patrimônio, podem não ter sido inicialmente idealizadas para se tornarem um monumento afetivo ao ponto de serem legalmente protegidas via tombamento, há também o caso de construções que foram concebidas para serem monumentais – muitas vezes em função da prepotência dos poderosos – mas que permanecem apenas como mostruário do ego humano.
Precisamos conhecer o passado – daí a importância do patrimônio – para que dele possamos refletir sobre como agir no presente e sem esquecer que devemos ter a pretensão de deixar um futuro melhor para nossos filhos. E os monumentos de hoje serão os símbolos que deixaremos como lembrança, para todos que vierem depois deles.