Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Brasil

Desinflação de alimentos, segurança alimentar e reconstrução nacional

É provável que os alimentos tenham a maior queda mensal de preços em 24 anos. Farei alguns comentários sobre esse assunto

Publicado em 21 de Agosto de 2023 às 00:10

Públicado em 

21 ago 2023 às 00:10
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

A coluna “Vaivém das Commodities”, assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, na Folha de S.Paulo, em sua edição digital de 9 de agosto, trouxe informações relevantes para o debate público. Em síntese, é provável que os alimentos tenham a maior queda mensal de preços em 24 anos. Farei alguns comentários sobre esse assunto, conectando-o com os desafios da reconstrução nacional.
Os dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) trazem uma boa notícia para o curto prazo. No entanto, segundo Zafalon, tal fato “está longe de aliviar o bolso dos consumidores, principalmente para os de menor renda”. A inflação de alimentos, desde 2019, se mostrou acelerada. Desde então, a inflação média dos alimentos ficou 57%, acima da inflação geral.
De acordo com a matéria, a “aceleração da inflação nos últimos quatro anos ocorreu devido à forte demanda externa por alimentos e à capacidade brasileira de suprir o mercado externo”. Não foi um fato derivado da pressão doméstica da demanda de consumo, algo que poderia até ter legitimado a contínua elevação da taxa básica de juros pelo Banco Central do Brasil (BCB), entre março de 2021 e agosto de 2022.
Houve recentemente uma redução da taxa básica de juros, porém, ainda assim, o Brasil continua com a maior taxa de juros reais do mundo, destacou o portal de notícias G1, no dia 2 de agosto. Conforme foi ressaltado, “descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses - acima de 4%, segundo relatório Focus, do BC - os juros reais ficaram em 6,68%”.
Segundo relatou Zafalon, “com estoques mundiais reduzidos por efeitos climáticos e por conflitos geopolíticos, como a invasão da Ucrânia pela Rússia, os preços internacionais dispararam, trazendo para dentro do país essa pressão”. Afinal, por que o Brasil deveria renunciar a ter políticas públicas de estoques reguladores de alimentos básicos?
Alimentos - grãos - trigo - cevada
Alimentos Crédito: Shutterstock
Divulgado no dia 8 de junho de 2022, o inquérito da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional trouxe então informações ainda preocupantes, tendo em vista os seus efeitos duradouros. A insegurança alimentar atingiu quase 60% dos domicílios, com 33 milhões de pessoas não tendo o que comer no Brasil. A persistente inflação de alimentos afetou a segurança alimentar das famílias brasileiras.
Uma em cada cinco famílias chefiadas por pessoas autodeclaradas pardas ou pretas no Brasil sofreu com a fome, praticamente o dobro em comparação com os lares chefiados por pessoas brancas. Foram 22% os lares chefiados por mulheres autodeclaradas pardas ou pretas que sofreram com a fome, sendo de 13,5% o percentual das famílias comandadas por mulheres brancas nessa situação.
De acordo com as estimativas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a insegurança alimentar grave subiu de 4 milhões para 21 milhões de pessoas no Brasil entre os períodos de 2014-16 e 2020-22. Para o mesmo período, a insegurança alimentar moderada ou grave cresceu de 37,5 milhões para 70,3 milhões de pessoas entre nós.
Guardadas as devidas proporções e distâncias históricas, esse dramático quadro nos remete ao clássico “Geografia da fome” (1946), de Josué de Castro. Com outras características, a fome se espalhou para todas as regiões do Brasil, urbanizando-se. Josué de Castro denunciou, décadas atrás, a tentativa de explicação da fome a partir de fenômenos estritamente naturais e biológicos, ignorando ou tentando esconder a natureza política do problema.
Em janeiro de 2019, foi extinto o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão responsável por coordenar os programas federais ligados à segurança alimentar. Programas de incentivo à agricultura familiar, que é a fonte principal da comida que chega à mesa das famílias brasileiras, foram extintos ou esvaziados. Não convém esquecermos que em 2014 o Brasil havia deixado o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).
Políticas públicas que reforcem o tradicional modelo de inserção primário-exportador, concentrador de riquezas, não colocarão o Brasil no rumo da construção de uma grande nação. Destaco, para finalizar, a matéria assinada por Cássia Almeida e que foi publicada no jornal O Globo, em 19 de junho de 2022. Segundo a jornalista, “o Brasil voltou ao passado na economia, no bem-estar da população, na educação e no meio ambiente, exibindo indicadores que remontam há até 30 anos”. Ainda está em disputa como será o tom da reconstrução nacional.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Trump diz que EUA vão pausar operação de escolta de navios no estreito de Ormuz
Imagem de destaque
O que se sabe sobre ataque a tiros que deixou duas pessoas mortas em escola no Acre
Imagem de destaque
'Não somos só notícia, somos pessoas': o apelo dos passageiros presos em cruzeiro com surto de hantavírus

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados