Em um interessante artigo de opinião publicado no jornal Valor Econômico, em sua edição digital de 5 de setembro de 2025, o sociólogo e professor José de Souza Martins trouxe uma reflexão relevante para o presente. Farei alguns breves comentários a partir do respectivo artigo.
O professor começou a sua reflexão trazendo informações públicas sobre “a problemática e persistente questão da escravidão pós-escravista no Brasil”. Os casos apresentados do Maranhão, do Rio Grande do Sul e do Pará retratam um drama presente ainda em nossos dias.
Segundo Martins, o “caso mais complicado é o da Fazenda Vale do Rio Cristalino, da Volkswagen, no Pará”. Havia pendências da firma alemã, “que foi condenada pela Justiça do Trabalho de Redenção a pagar R$ 165 milhões por escravidão, nos anos 1970 e 1980, na ditadura militar”.
A fazenda possuía infraestrutura industrial de abate de gado, com sistema de refrigeração e envio do produto por avião para a Alemanha. Nesse sentido, é possível dizer que a República Federal da Alemanha recebia carne fresca como se possuísse uma fazenda amazônica de pecuária.
Como característica paradoxal, Martins avaliou que a empresa empreendia um capitalismo “ultramoderno e ultra-atrasado ao mesmo tempo”. Para o sociólogo, tratava-se de uma “característica da economia da ditadura, a do crescimento econômico sem desenvolvimento social e com repressão laboral”.
Esse legado ruim ainda se faz presente. Conforme ponderou Martins, “para viabilizar esse estranho capitalismo divorciado de racionalidade, o sistema econômico inventou estratégias que agregassem ao lucro o lucro extraordinário derivado da sobre-exploração do trabalho. Isto é, o trabalho escravo legalizado sob a forma de trabalho terceirizado”.
Ainda há setores econômicos em que empregadores se desresponsabilizam das condições adversas de trabalho. Infelizmente, “o Brasil é o laboratório da reinvenção do capitalismo”, para Martins. Uma elevada e crônica informalidade laboral e um mercado de trabalho estruturalmente precário revelam que os desafios são enormes para a construção de um país menos desigual.
No livro ‘A história da escravidão’, editado pela Boitempo, em 2009, Olivier Pétré-Grenouilleau, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, ressaltou que “milhões de pessoas, verdadeiras escravas modernas, são exploradas hoje no mundo inteiro”. Uma forma moderna apontada de escravidão é a da terceirização, quando há a exploração extrema da mão de obra.
Em síntese, segundo o professor, “como se vê, seria no mínimo ingênuo acreditar que os progressos da civilização vieram automaticamente acompanhados da erradicação da escravidão, ou mesmo de sua extinção gradativa”. Não devemos subestimar os avanços históricos da abolição da escravidão no direito internacional, pois trata-se de um passo relevante que a escravidão seja reconhecida como universalmente inaceitável.