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Mobilidade urbana

Vitória acelera, mas acelera mal

Precisamos discutir limites de velocidade, fiscalização, sinalização, educação urbana e responsabilidade

Publicado em 20 de Maio de 2026 às 16:15

Públicado em 

20 mai 2026 às 16:15
Renato Avelar

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Renato Avelar

Vitória foi pensada muito antes da explosão dos automóveis
Vitória foi pensada muito antes da explosão dos automóveis Shutterstock

Vitória acelera. E acelera mal. Jaime Lerner, o genial urbanista que revolucionou Curitiba e criou as bases do que viria a ser o BRT, dizia que os carros eram o colesterol urbano. Não era força de expressão. Era diagnóstico técnico. Basta tentar sair de Bento Ferreira às seis da tarde, cruzar a Enseada do Suá no fim do expediente ou entrar na Praia do Canto em horário de pico. A cidade trava. E, muitas vezes, quem está caminhando chega primeiro.

Vitória foi pensada muito antes da explosão dos automóveis. O Novo Arrabalde, desenhado por Saturnino de Brito em 1896, era visionário para sua época. Depois vieram outros grandes planejadores urbanos, como Creso Euclides, no desenho de Jardim da Penha, inspirado em conceitos modernos aplicados também em Belo Horizonte. 

Mas existe um detalhe importante: nenhuma dessas cidades foi concebida para uma sociedade onde cada pessoa quer possuir dois carros, uma moto, uma bicicleta elétrica e, de preferência, parar em fila dupla para comprar água de coco.

A cidade cresceu. O maciço central ocupa quase metade da ilha. Espaço virou artigo de luxo. E então surgiu a solução aparentemente perfeita: as bicicletas elétricas. Silenciosas, eficientes, inteligentes. Em tese, maravilhosas. Na prática, viraram um videogame urbano.

Quem se lembra daquele desenho clássico do Pateta, “Motor Mania”? O cidadão educado entrava no carro e se transformava em um monstro ao volante. Dentes cresciam, unhas cresciam, a civilidade desaparecia. Pois tenho a impressão de que muita gente sobe numa bicicleta elétrica e sofre exatamente a mesma mutação.

Vale tudo. Contramão. Calçada. Sinal vermelho. Zig-zag em alta velocidade. Adolescentes de 13 anos pilotando como motociclistas na ponte Ayrton Senna. Três pessoas na mesma bicicleta. Sem capacete. Sem noção. Sem regra. Sem fiscalização.

No último domingo, passeando pela orla da Praça dos Namorados, quase fui atropelado três vezes. E não por carros. Por bicicletas elétricas em velocidade incompatível com qualquer convivência civilizada.

Mas seria injusto culpar apenas quem pedala. O caos é coletivo. A ciclovia virou terra de ninguém. Tem carrinho de bebê. Tem bicicleta de rodinha. Tem gente caminhando no meio da faixa. Tem usuário das bicicletas compartilhadas aprendendo a pedalar em horário de movimento. E tem também o ciclista esportivo que acha que está disputando o Tour de France em plena Praia de Camburi.

Ninguém sabe exatamente qual é a regra. Porque ela praticamente não existe. Ou melhor: existe no papel, mas não existe na prática.  E aí entra um ponto delicado. O europeu educado que admiramos não nasceu obedecendo regras por geração espontânea. Ele foi educado, fiscalizado e multado durante décadas. Civilização não é milagre. É construção cultural.

Na Holanda, referência mundial em mobilidade por bicicletas, a mudança levou anos. Houve campanhas, infraestrutura, disciplina e fiscalização pesada. Não aconteceu porque um influencer gravou um Reels dizendo “use bike”.

Aqui ainda estamos em “modo avião” quando o assunto é regulamentação. Precisamos urgentemente discutir limites de velocidade, fiscalização, sinalização, educação urbana e responsabilidade. Porque a bicicleta elétrica é uma solução brilhante. Mas sem ordem, toda solução vira problema.

E talvez Jaime Lerner tivesse razão em algo ainda maior: o problema nunca foi apenas o carro. O problema sempre foi o ser humano acelerando qualquer coisa sem saber conviver em sociedade. Aliás, nem pedalando mais estamos. Estamos apenas acelerando mal.

Renato Avelar

É corretor e empresário do setor imobiliário com mais de 35 anos de experiencia no mercado capixaba, gestor de empresas que integram a maior rede imobiliária do mundo.

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