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“Existem muitos contextos diferentes do que é ser mulher no Brasil”, diz Aline Midlej

A jornalista, apresentadora e escritora fala sobre sororidade, maternidade, autonomia financeira da mulher e ética jornalística.

Publicado em 20 de Maio de 2026 às 16:53

Rubi Conde

Publicado em 

20 mai 2026 às 16:53
Aline Midlej, convidada para o evento Todas Elas. (Foto: João Miguel Jr./ Globo)

Eu fui a primeira muitas vezes na televisão em muitas situações diferentes”. A frase da jornalista Aline Midlej resume o desafio de ocupar espaços que, historicamente, não foram consolidados para mulheres — especialmente para mulheres negras.

Em entrevista, a apresentadora do J10, da GloboNews, fala sobre os desafios da carreira, maternidade, autonomia financeira, jornalismo, diversidade e a importância de democratizar o protagonismo feminino. Para Aline, a construção de políticas públicas mais eficazes passa pela escuta de mulheres de diferentes realidades. Confira a entrevista:

Com frequência, as lideranças femininas são construídas superando barreiras invisíveis. Quais os maiores desafios que você já enfrentou no jornalismo como mulher?

Acho que o desafio se dá cotidianamente. Muito do que vivemos nas relações fora do trabalho se reproduz no ambiente corporativo. Por mais que existam espaços com um trabalho importante de equidade de gênero e valorização da diversidade, ainda há uma cultura sendo enfrentada dentro das empresas.

Ser mulher — e, no meu caso, ser uma mulher negra — agrega camadas que dificultam a ascensão, sobretudo no sentido de fazer valer a própria autoridade e o próprio valor. Tudo passa por relações de poder. Como uma mulher que não ocupa esses espaços consegue furá-los, muitas vezes sendo a primeira?

Eu fui a primeira muitas vezes na televisão, em situações diferentes. E, conforme você rompe essas barreiras, também passa a comunicar por que elas existem e o que foi necessário para atravessá-las. São barreiras que parecem invisíveis, mas são muito visíveis para quem está passando por elas.

Quando uma mulher consegue ascender e transpor essas barreiras, ela abre caminho para muitas outras. Mostra que é possível e, principalmente, mostra o que precisa ser feito para que essas barreiras não se ergam novamente.

Consigo visualizar essas barreiras na minha vida desde o momento em que me formei. Ao mesmo tempo, acho que existe o desafio de não pensar nelas o tempo todo. A gente precisa viver sabendo que elas estão ali. A gente sente, percebe, visualiza, mas não pode ficar focada apenas nisso. É preciso focar na caminhada, no que você sabe fazer e na busca por aliados — mulheres e homens que entendam, de fato, a importância de ter mulheres decidindo e atuando. Já está comprovado que mulheres na liderança trazem resultado.

Em quais momentos da sua trajetória você sentiu que estava abrindo caminhos para outras mulheres?

Acho que sinto isso a todo momento. É uma condição da minha trajetória.

Fui a primeira âncora negra da GloboNews, a segunda âncora negra a apresentar o Jornal Nacional e acredito que também tenha sido a primeira âncora negra da TV Bandeirantes. Acho que fui a única jornalista brasileira a percorrer o continente africano fazendo um documentário. Visitei mais de 20 países e vivi experiências jornalísticas que pouquíssimas mulheres tiveram.

Eu não pensava nisso enquanto fazia, mas percebia, porque era a única. Quando você é a única em um lugar — ou quando há poucas como você —, naturalmente entende que aquele ainda não é um espaço consolidado para pessoas como você.

Portanto, a todo momento ainda estamos inaugurando nossa presença nesses lugares. E, quando você inaugura uma presença em um espaço onde antes não cabiam pessoas como você, naturalmente abre caminho para que outras se vejam ali e lutem para estar ali também.

Durante muito tempo, a ideia de imparcialidade foi usada para tratar desigualdades como se fossem apenas “opiniões em disputa”. Como você diferencia neutralidade jornalística de omissão?

Para mim, a imparcialidade do jornalista reside principalmente na busca pela informação bem apurada. Quando temos um assunto, um acontecimento ou uma cobertura a fazer, precisamos trazer todos os olhares possíveis, ouvir diferentes versões, confrontá-las, buscar estatísticas, embasamento e construir a verdade a partir das informações disponíveis.

Isso é uma coisa. Outra é negociar valores que são inegociáveis.

Debater a sociedade a partir de temas estruturantes, como as desigualdades brasileiras, não é uma questão de parcialidade, mas de ética. Se estou noticiando que uma mulher foi assassinada pelo ex-companheiro por sua condição de mulher, porque queria ser livre e terminar um relacionamento, não se trata apenas de apresentar “outra versão” da história. Trata-se de falar de um país que mata mulheres e permite que mulheres sejam mortas porque ousaram tentar ser livres.

Para mim, isso não é ser parcial. É ser ética. É tratar com sentimento, verdade e a devida indignação temas que dizem respeito aos atrasos civilizatórios do Brasil.

Diante de uma notícia, o papel de quem comunica é levar reflexões para a sociedade. Isso vale para todos os tipos de violência consolidados e naturalizados no país.

Em uma sociedade desigual, é possível democratizar o protagonismo feminino para mulheres de todos os contextos sociais?

Acho que dá, porque tem que dar. Todo mundo precisa falar e ser ouvido. Mas esse movimento passa muito pelas próprias mulheres.

Como nós, mulheres, enquanto estamos nas trincheiras — cada uma atuando à sua maneira para construir igualdade, respeito e liberdade —, conseguimos nos organizar melhor e nos ouvir mais? Existem muitos contextos diferentes do que é ser mulher no Brasil. Precisamos respeitar mulheres diferentes de nós, que pensam de forma diferente e têm caminhos diferentes dos nossos.

Ainda temos um dever de casa importante. Pertencemos a uma cultura em que as mulheres foram ensinadas e criadas para rivalizar entre si, para competir. O valor de uma parecia depender do desvalor da outra. Isso ainda é muito forte na sociedade brasileira e serviu para manter o poder e a decisão nas mãos de grupos muito específicos.

Existe uma lição de casa diária, cotidiana e cultural entre as mulheres: sermos mais unidas, parceiras e aliadas. Só assim poderemos construir um mundo em que possamos existir de forma plural, porque somos muitas, variadas, e cada mulher tem uma trajetória singular que precisa ser ouvida.


Essas trajetórias também indicam caminhos para a criação de políticas públicas mais eficientes e de ferramentas de inclusão que deem conta de diferentes realidades.

Nenhuma voz feminina é mais importante que outra, mas existem vozes femininas mais fortes que outras. E essas vozes mais fortes têm uma responsabilidade maior de trabalhar para que as vozes com menos escuta sejam ouvidas. Isso é um exercício de sororidade — muito falado, mas ainda pouco praticado, de fato, entre as mulheres.


A maternidade e a jornada dupla de trabalho impactaram sua visão profissional?

Totalmente. Hoje entendo por que tantas mulheres estão decidindo não ser mães: elas sabem que vão viver em um mundo onde ser mãe e ser profissional não é compatível.

Você pode ser mãe e trabalhadora, mas ser mãe e profissional com carreira, capacidade de escolha e possibilidade de crescimento é muito difícil.

Sou um exemplo disso. Só consegui retomar minha carreira porque tive condições financeiras de criar uma rede de apoio. Tenho uma rede afetiva e familiar que também funciona. Mas essa não é a realidade da maioria das mulheres.

Na verdade, muitas mulheres estão sozinhas nessa missão, carregando uma casa inteira nas costas. São abandonadas pelos companheiros, pelo Estado e por uma sociedade que romantiza a mulher heroína, aquela que dá conta de tudo. Elas dão conta, mas estão adoecidas, exaustas e sobrevivendo.

Para uma mulher conseguir ser profissional com carreira e, a partir disso, ter independência financeira — que para mim é fundamental também no combate às violências —, ela precisa de condições concretas.

Uma mulher sem autonomia financeira como vai dizer “não” quando depende de um companheiro ou ex-companheiro violento para sobreviver e alimentar os filhos? Como vai dizer “não” a um empregador abusador, que chantageia, se depende daquele emprego? Como vai conseguir um emprego melhor se não pôde estudar mais, se formar ou se especializar?

Trabalhar a formação das mulheres no Brasil deveria ser a prioridade número um de uma política de equidade de gênero. É preciso garantir que essa mulher entenda quem ela é, tenha tempo para desenvolver suas potencialidades, se formar, construir autonomia profissional e financeira, ser o que quiser e dizer “não” quando entender que precisa dizer — inclusive pela própria sobrevivência.

A autonomia profissional das mulheres é um caminho fundamental. Eu vivi um exemplo pessoal que pouquíssimas mulheres têm: o privilégio de construir carreira e depois viver a maternidade. Isso não pode continuar sendo assim.

Existe algum conselho de carreira que você desaprendeu com o tempo?

“Seja racional.”

Sou cada vez menos racional e cada vez mais coração. Não é que eu não pense, mas hoje meu canal de reflexão passa principalmente pela intuição. Aprendi a respeitar minha intuição e minha observação.

Acho que há uma dose de racionalidade nisso também, mas é menos sobre pensar e enquadrar, e mais sobre sentir, perceber e confiar. Se eu tivesse feito isso mais cedo, teria sofrido menos.

Quais temas ligados às mulheres o jornalismo ainda insiste em tratar pelos mesmos enquadramentos, sem avançar de verdade na complexidade?

Acho que o tema da autonomia financeira das mulheres.

No combate à violência doméstica, considero que avançamos muito. Conseguimos aprofundar as conversas. As matérias jornalísticas estão melhores, mais complexas, e dão mais conta do que significa uma mulher morrer vítima de feminicídio.

Hoje, o jornalismo consegue contar essas histórias e mostrar o caminho das violências: como chegamos a esse nível, onde essa vida se perde, o que falhou na proteção dessas mulheres e quais são as consequências de um feminicídio no Brasil — para as famílias, para os órfãos dessas mulheres e para a cultura de violência no país.

Mas ainda falta olhar para a diversidade dos universos femininos. Falta reunir mulheres diferentes para falar. Falta tratar, com mais cuidado e sofisticação, trajetórias que são múltiplas.

Ainda existem muitos estigmas sobre determinados grupos de mulheres. Muitas vezes conseguimos tratar bem a estatística, mas não tratamos tão bem a subjetividade: dar rosto, história e tempo para que essas mulheres sejam ouvidas. Precisamos trabalhar melhor isso, inclusive confrontando a audiência para que ela entenda o que é a diversidade no Brasil.


O termo diversidade acabou sendo capturado pela agenda ideológica, tanto à esquerda quanto à direita. Mas diversidade é uma das coisas mais bonitas do Brasil. É o plural que temos de mais forte. A grande força do país está na diferença, nesse caldo de experiências, histórias e processos que construíram diferentes grupos de pessoas: mulheres, homens, negros, indígenas, pessoas não brancas, famílias.

Somos um país muito rico em experiências. E o jornalismo tem o papel diário de percorrer, com fôlego, a construção de narrativas que sejam, de fato, múltiplas. Precisamos conseguir nos ver no outro, ver através do outro e compreender a sociedade também a partir de experiências que não são as nossas.

Acho que é isso que fará o Brasil avançar na direção certa: deixar de ser um país onde tantas violências foram simplesmente aceitas e naturalizadas.

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