Semanas atrás escrevi aqui sobre Vitória acelerando: Cais das Artes, Canal de Camburi, ciclovias, orla reformada, cidade que finalmente olha pro mar. Mas tem um detalhe que ficou de fora do artigo e que precisa ser dito com a mesma honestidade: a cidade está mudando muito. Mas o comportamento, ainda não.
Fui para a Holanda recentemente pela 12ª vez. Quem me conhece sabe que eu ando pelo mundo, e a Holanda é uma referência para mim, não para copiar, mas para pensar.
Pois bem: no país, 84% da população usa bicicleta todo dia. São 23 milhões de bikes para 18 milhões de habitantes. Quase 800 quilômetros de ciclovia só na capital.
E tudo funciona. Pedestre respeita o ciclista. Motorista para na faixa. Quem pedala sinaliza antes de virar. É uma coreografia. Parece ensaiada. É cultura.
Só que não foi sempre assim. Na década de 1970, a Holanda tinha um dos piores trânsitos da Europa. A população foi às ruas com um movimento chamado “Stop de Kindermoord”, ou "Parem com o Assassinato de Crianças, em uma tradução livre.
Pressionaram o governo, mudaram o planejamento urbano, reformularam as ruas e, ao longo de décadas, mudaram a cabeça das pessoas. O urbanismo veio primeiro. A urbanização, no sentido humano da palavra, veio depois. E demorou.
E é exatamente aqui que mora a nossa questão. Vitória está recebendo urbanismo de primeira linha. Intervenções sérias, projetos assinados, infraestrutura que envergonha cidades maiores.
Mas a gente ainda não virou urbano de verdade. E não estou falando de morar na cidade. Estou falando de cidadania. De convivência. De respeito ao espaço do outro.
Porque veja bem: o problema do nosso trânsito não é só do motorista que não para na faixa. É do pedestre que atravessa fora dela, olhando pro celular, de um jeito que desafia a física.
É do ciclista que sobe na calçada, passa na contramão e acha que a ciclovia é uma pista de Fórmula 1 particular. É do motorista que buzina, que fecha, que estaciona em cima da calçada e que trata o espaço público como extensão da própria garagem.
A má educação no trânsito é democrática. Não tem time. A pé, de bike ou de carro, tem gente se comportando mal em todas as modalidades. O que muda é a tonelagem do dano.
Então o que vem primeiro: o urbanismo ou a urbanização?
Essa é uma das perguntas mais honestas que uma cidade em transformação pode se fazer. E a resposta holandesa sugere que são duas pistas do mesmo caminho e que uma não anda bem sem a outra.
A infraestrutura convida ao comportamento. Mas o comportamento precisa ser cultivado. Com educação, com sinalização, com fiscalização e, principalmente, com orientação e regras.
Vitória tem uma janela rara. Uma janela que cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já perderam, ou tornaram impossível de abrir.
Somos ainda uma cidade de escala humana, onde dá para olhar nos olhos de quem está do outro lado da rua. Onde ainda é possível construir uma cultura de mobilidade antes que o caos vire identidade.
A Holanda levou 30 anos para transformar a cabeça das pessoas. A gente não precisa de 30. Mas precisa começar agora.
E começar nos pequenos gestos: parar na faixa, respeitar a ciclovia, não transformar a calçada num estacionamento, usar o buzinão só em emergência de verdade.
A Holanda é um exemplo, já fez e deu certo, não precisamos reinventar a roda, só fazer como o exemplo deles.