Ao longo dos últimos meses, nesta coluna, percorremos um
caminho interessante. Falamos sobre a força do Espírito Santo, o potencial do
Sul do Estado, a revitalização do Centro de Vitória, a nova Orla de Camburi, o
Cais das Artes e a cidade que cresce quando urbanismo, arquitetura e mercado
imobiliário caminham na mesma direção.
Hoje quero convidar você a atravessar uma ponte: a ponte
Ayrton Senna.
Bastam poucos minutos para sair da Praia do Canto e chegar a um dos bairros mais interessantes de Vitória, mas que, curiosamente, ainda passa despercebido por muita gente. O capixaba é naturalmente bairrista. E quem mora na Praia do Canto, talvez ainda mais. Existe uma tendência de acreditar que o melhor da cidade termina nas famosas quatro ruas daquele bairro extraordinário. E, de fato, a Praia do Canto é um dos lugares mais agradáveis do Brasil para se viver.
Mas Vitória nunca foi feita de um único bairro. Logo ao lado
existe uma joia que começa a despertar.
Jardim da Penha nasceu de um planejamento urbano
extremamente inteligente. Seu desenho, concebido ainda na década de 1950 por
Creso Euclydes, bebeu na fonte das ideias modernistas e positivistas que
influenciaram cidades como Belo Horizonte e Paris. O resultado foi um bairro
pensado para as pessoas. Ruas largas, praças bem distribuídas, arborização
generosa, comércio integrado ao cotidiano e uma escala urbana que continua
extremamente agradável.
Aliás, poucos bairros conseguem reunir um comércio de rua
tão forte quanto Jardim da Penha. Basta observar o entorno da antiga Praça do
Santa Martha, hoje conhecida por muitos como Praça do BH. Ali estão alguns dos
aluguéis comerciais mais valorizados da cidade, reflexo de um comércio vivo,
diverso e permanente.
Durante muitos anos, porém, Jardim da Penha ficou
praticamente congelado pelo Plano Diretor Urbano. A dificuldade para aprovação
de novos empreendimentos reduziu drasticamente os lançamentos imobiliários. E
existe uma regra simples no mercado. São os imóveis novos que puxam o valor dos
usados.
Foi exatamente isso que aconteceu na Praia do Canto.
Como Jardim da Penha quase não recebeu novos edifícios, seus
imóveis permaneceram relativamente estáveis. Não porque perderam qualidade,
muito pelo contrário. Permaneceram estáveis porque faltou renovação da oferta.
Agora esse cenário começa a mudar.
Nossa ilha possui espaço cada vez mais escasso.
Naturalmente, a cidade passa a olhar para áreas capazes de absorver uma nova
dinâmica urbana. O triângulo formado pela avenida Dante Michelini, Eugênio
Ramos e Saturnino Rangel Mauro ganha protagonismo. Soma-se a isso a
revitalização da Orla do Canal de Camburi, uma intervenção urbana que já
mostrou seu sucesso no trecho da Praia do Canto e que deverá produzir um efeito
semelhante naquele lado da cidade.
A experiência urbana muda. E quando a cidade muda, o mercado
acompanha.
Costumo dizer que o mercado imobiliário não cria tendências
sozinho. Ele responde às transformações da cidade.
Há cerca de 12 anos gravei um episódio do Rolê Imobiliário
fazendo uma previsão sobre uma região que, na época, poucos acreditavam.
Recentemente revi aquele vídeo e percebi que a cidade confirmou exatamente
aquele movimento.
Não foi sorte. Também não foi bola de cristal. Foi
observação.
Quem trabalha diariamente com imóveis aprende que valor não
nasce apenas do concreto. Ele nasce da mobilidade, dos espaços públicos bem
cuidados, da qualidade urbana e da forma como as pessoas passam a ocupar a
cidade.
Por isso faço aqui mais uma previsão. Acredito que Jardim da
Penha será um dos bairros com maior potencial de valorização de Vitória nos
próximos anos. Não apenas pelos edifícios que poderão surgir, mas
principalmente pela qualidade de vida que sempre esteve ali e que agora começa
a ser redescoberta.
Às vezes, a próxima grande oportunidade não está do outro lado do mapa. Ela está apenas do outro lado da ponte.