Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Vingança & Castigo": ótimo faroeste da Netflix é pop e político

Com influências de clássicos e de filmes como os de Quentin Tarantino, "Vingança & Castigo" é violento e pop faroeste com mensagem anti-racista

Vitória
Publicado em 04/11/2021 às 21h51
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Filme "Vingança & Castigo", da Netflix. Crédito: David Lee/Netflix

No início de “Vingança & Castigo”, filme lançado pela Netflix, os letreiros contam que aquelas pessoas existiram, mesmo que as situações contadas pelo texto sejam ficcionais. O período que acostumamos a chamar “Velho Oeste” americano trazia um recorte complicado, com o fim da Guerra Civil, a reintegração de soldados derrotados e, principalmente, de ex-escravizados em uma sociedade que não lhes dava oportunidade - mesmo não mais escravizados, negros não podiam possuir terras em vários estados dos EUA, o que os levou à clandestinidade.

Em sua autobiografia, o ex-escravizado Nat Love (1854 - 1921) narra histórias dignas dos grandes faroestes de John Wayne, lutando contra indígenas, ao lado de indígenas, contra bandidos, ao lado de bandidos, bebendo com Billy the Kid em saloons… Por que, então, essas aventuras foram raramente levadas para a cultura pop?

Interpretado por Johnathan Majors (“Lovecraft County”), Nat Love é o protagonista de “Vingança & Castigo”, dirigido por Jeymes Samuel, um faroeste que subverte diversos pontos do que se espera de um filme do gênero, mas que também oferece excelente ação, bom drama e uma roupagem pop que mistura os “spaghetti western” italianos ao cinema contemporâneo de Quentin Tarantino. A história é fictícia, mas aquelas pessoas existiram de fato.

O filme tem início com uma violenta cena envolvendo o jovem Nat e o bandido Rufus Buck (Idris Elba), que não apenas assassina toda a família Love como também deixa uma cicatriz na testa de Nat. Após o prólogo, conhecemos Nat adulto, um fora da lei com um código de honra - ele não rouba bancos ou trens pagadores, mas rouba o dinheiro de quem roubou esses estabelecimentos.

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Filme "Vingança & Castigo", da Netflix. Crédito: David Lee/Netflix

O carisma do personagem de Majors serve de contraponto à sisudez do vilão de Elba. Os antagonistas são construídos com camadas nem sempre agradáveis, pois Rufus Buck é violento e sádico o tempo todo, mas é também um líder fiel a seu bando. Ambos têm momentos de destaque, Majors na construção de Nat Love, um personagem adorável e com quem o público simpatiza desde o primeiro instante. A identificação com o drama do protagonista é tamanha que dá força à escolha do texto de construir a tensão entre ele e o vilão gradualmente, para que esperemos o confronto final. Quando esse clímax chega, no entanto, ele abre espaço para uma atuação pesada de Idris Elba e seu Rufus Buck, um fora da lei carregado de uma culpa e um rancor que é notável em sua postura e no tom de sua voz.

Da mesma forma que constrói a tensão entre os dois protagonistas, a narrativa também faz excelente trabalho ao apresentar os dois bandos, com todos os principais coadjuvantes encontrando paralelos no outro lado. Assim, anseia-se por um embate entre Bill Pickett (Edi Gathegi) e Cherokee Bill (LaKeith Stanfield), ambos considerados os pistoleiros mais rápidos da região, ou entre Trudy Smith (Regina King) e Mary Fields (Zazie Beetz), duas ótimas personagens interpretadas por duas atrizes espetaculares.

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Filme "Vingança & Castigo", da Netflix. Crédito: David Lee/Netflix

“Vingança & Castigo” é acima de tudo um produto pop - dos nomes no elenco à estética da ação, é um filme pronto para o consumo e com uma ótima trilha sonora cheia rap, reggae, raggaton e soul. A roupagem pop ameniza a mensagem anti-racista do texto e todo o questionamento acerca do apagamento da história negra. Ao vislumbrar a ameaça iminente, uma personagem afirma; “enfrentará o Diabo em pessoa. Precisa de reforços”. A resposta vem de imediato. Já vi o Diabo, e não é o Rufus Buck. O Diabo é branco”.

O filme de Jeymes Samuel trata do tema com ironia e até certo sarcasmo. Nas cidades pelas quais a história transita, são todos negros em todas as posições, inclusive as de poder; os brancos surgem na trama como ameaças incapazes de fazerem frente àqueles personagens, como corruptas forças da lei ou ridicularizados em uma cidade totalmente branca (literalmente).

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Filme "Vingança & Castigo", da Netflix. Crédito: David Lee/Netflix

“Vingança & Castigo” nunca perde sua força ou seu ritmo, tampouco deixa baixar seu apelo pop. Após toda a tensão construída entre os dois bandos, o clímax do filme é uma sequência grandiosa, um tiroteio de tirar o fôlego. Cheio de estilo, o confronto entre os bandos de Love e Rufus é filmado com elegância que faz lembrar os clássicos do faroeste dos anos 1960 e 70, cheios de tomadas longas, close-ups e com a utilização de zoom para efeitos dramáticos. A trilha sonora desse ponto também faz referência aos clássicos de Enio Morricone.

Ao fim do filme, até se esquece se tratar da estreia de Samuel como diretor de um longa-metragem - já havia dirigido um média e um clipe de Jay-Z (produtor do filme) anteriormente. “Vingança & Castigo” é divertido, traz frescor a um gênero clássico mesmo homenageando os pilares dele. O filme tem ótimo texto e excelentes atuações; um roteiro que não se esforça para ser político, mas o faz de maneira leve, reforçando, desde o início, que a história não será embranquecida enquanto houver a arte.

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