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Crítica

"Sorriso Real", da Netflix, fica entre o romance e o constrangimento

"Sorriso Real" abusa das fórmulas de romances para criar um conto de fadas na história de uma jovem trabalhadora e um herdeiro bilionário

Publicado em 15 de Julho de 2023 às 01:47

Públicado em 

15 jul 2023 às 01:47
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Série coreana
Série coreana "Sorriso Real", é sucesso da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Por que os doramas e os k-dramas fazem tanto sucesso? Os dramas orientais, produzidos no Japão e principalmente na Coreia do Sul (uma indústria cinematográfica gigantesca), conquistaram o mundo e um público vasto. Não é coincidência que o momento de sucesso dessas produções coincida com a ascensão do k-pop; os dois, na verdade, estão interligados a um projeto de expansão cultural, de soft power (relevância global a partir da cultura), uma prática não muito diferente da que tornou os EUA uma potência global décadas atrás.
Séries como “Round 6”, ainda hoje a mais vista da história da Netflix, conquistaram o mundo. A plataforma tem investido desde então cada vez em mais em conteúdos coreanos – tinha até uma área dedicada para essas obras no Tudum, evento global da marca. Assim, volta e meia alguma nova série sul-coreana aparece entre as mais assistidas, da violenta e madura “My Name” à ingenuidade novelesca de “Uma Advogada Extraordinária”, trama em que o novo sucesso, “Sorriso Real”, parece se inspirar bastante.
Com dois episódios semanais, “Sorriso Real” é um conto de fadas travestido de drama coreano. Na série, acompanhamos Cheong Sa-rang (Im Yoon-ah), uma jovem que sonha em ser concierge de um grande hotel. Quando a conhecemos, ela está em um processo seletivo para ser contratada como trainee do Hotel King por um mês. Sa-rang é uma batalhadora, não vai deixar que nada a atrapalhe em seu sonho, como pode-se ver na sequência em que é entrevistada para a vaga.
A série também acompanha Gu-Won (Jun-Ho Lee), um rapaz bonito cuja única característica dada pelo texto é ser herdeiro de um império que inclui o Hotel King. Para mostrar o quanto ele é “diferente”, a série o introduz enquanto salta de paraquedas, de terno e gravata, para chegar ao hotel da família.
Série coreana
Série coreana "Sorriso Real", é sucesso da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Após um breve contato entre seus protagonistas, “Sorriso Real” tem uma passagem de tempo, de 2015 aos dias atuais. Nesse meio, Sa-rang subiu na carreira e ficou noiva, enquanto Gu-Won resolveu estudar. Quando ele finalmente precisa voltar ao hotel, o reencontro deles é inevitável. A série segue a batida, mas sempre eficaz, fórmula do “de rivais a amantes”, tudo, é claro, do jeito coreano.
Voltando à pergunta que abre este texto, os doramas funcionam devido a seu grande apelo popular. “Sorriso Real” segue a fórmula que deu certo em “Uma Advogada Extraordinária”, abusando da comicidade e da ingenuidade de seus personagens. A série também aposta muito, mas muito mesmo, no romance entre seus protagonistas.
Série coreana
Série coreana "Sorriso Real", é sucesso da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
A história de Sa-rang é a história da Cinderela, uma plebeia que ousa entrar na realeza mesmo que não seja qualificada para isso, como o primeiro episódio inicialmente reforça – o hotel é o palácio e Gu-Won, obviamente, é o príncipe. No intuito de manter aceso o interesse do público no romance, a série abusa do “quase”, com várias sequências nas quais o público pensa “agora vai”, mas os doramas não são assim, e o sucesso talvez venha justamente disso.
Há uma pureza intencional nos personagens de “Sorriso Real” e em sua trama, característica que reforça o aspecto conto de fadas da série e que pede que o espectador ignore todo o resto. Gu-Won não é interessante, mas é bilionário e bonito, o que parece bastar para o texto e seu conflito: uma jovem batalhadora de origem humilde desperta o interesse do solteirão nobre e cobiçado. Há poucos conflitos reais na série, que escolhe não se aprofundar em nenhuma das questões sociais que aborda superficialmente. Novamente, essa fuga da realidade é justamente o que desperta e mantém o interesse do público.
Série coreana
Série coreana "Sorriso Real", é sucesso da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
“Sorriso Real” é uma série fácil para quem procura uma série fácil. A série nunca desafia o espectador e oferece a ele justamente o que ele procura. Quer uma história de amor ingênua, um conto de fadas moderno com convenções antigas? A série da Netflix é para você. Caso contrário, melhor nem arriscar, pois “Sorriso Real” consegue ser muito mais constrangedora do que divertida para um público mais exigente.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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