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Crítica

Por que "Ozark" chega ao fim como a melhor série da Netflix?

Episódios finais da quarta temporada de "Ozark" chegam à Netflix com uma conclusão explosiva e um roteiro que mostra o motivo dela ser a melhor série original da plataforma

Publicado em 29 de Abril de 2022 às 02:29

Públicado em 

29 abr 2022 às 02:29
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

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Série "Ozark", da Netflix Crédito: STEVE DIETL/NETFLIX
“Ozark” não foi uma série que acompanhei desde o início, em 2017. Foi só no lançamento da terceira temporada, já durante a pandemia, que resolvi assistir à série original Netflix estrelada por Jason Bateman, Julia Garner e Laura Linney e acabei fisgado já no primeiro episódio.
“Ozark” bebe nas mesmas fontes de “Breaking Bad”, série com a qual foi inicialmente comparada, mas são criaturas diferentes. A série tem na construção dos personagens seu grande trunfo e dá a seus acontecimentos o peso necessário para a narrativa - assim, nada acontece ao acaso e tudo tem efeito; algo que aconteceu na primeira temporada é naturalmente retomado na segunda parte da quarta e última, que chega nesta sexta (29) à Netflix.
Ao longo dessas quatro temporadas de “Ozark”, muitos detalhes chamam a atenção. Inicialmente somos levados para o núcleo da família Byrde e induzidos a simpatizar com eles. Marty (Jason Bateman) e Wendy (Laura Linney) vivem uma séria crise conjugal, aproximando o texto da realidade do espectador. O fato de Marty lavar dinheiro para traficantes de drogas é um detalhe, algo que tinha mais relações com seu parceiro de negócios do que com ele próprio. Quando conhecemos Ruth (Julia Garner, brilhante no papel), ela é mais uma “white trash”, uma caipira que vive de pequenos golpes e tenta roubar o dinheiro dos Byrde. O tempo, porém, nos mostra a jovem Langmore como a verdadeira protagonista da história.
Ao contrário de todos na série, incluindo na lista Charlotte (Sofia Hublitz) e Jonah (Skylar Gaertner), Ruth teve poucas escolhas. Marty é um contador brilhante, Wendy tinha uma carreira na política e os jovens Byrde tinham os privilégios dos mais abastados, mas Ruth é fruto do meio em que cresceu, uma família problemática em que os pequenos crimes são praticamente um estilo de vida. Ruth vê nos Byrde sua única chance de viver seu próprio sonho americano, objetificado neste arco final pela piscina - a partir de certo ponto, não é mais com os antigos protagonistas que o texto busca a identificação do espectador.
Série
Série "Ozark", da Netflix Crédito: STEVE DIETL/NETFLIX
Nos sete episódios finais de “Ozark”, o texto finalmente deixa claro não se tratar de uma história de salvação. Em momento algum nas quatro temporadas, os Byrde buscaram essa redenção, muito pelo contrário, foram eles que se colocaram na posição em que se encontram única e exclusivamente para salvar as próprias peles. É sadicamente natural que simpatizemos com eles a princípio, mas qual o limite dessa identificação, qual o ponto em que o espectador finalmente percebe não estar diante de uma jornada de superação, mas sim presenciando a construção de uma elite corrupta fundamentada no crime organizado?
A reta final de “Ozark” desconstrói todo o heroísmo de Marty e Wendy, como se preparasse o espectador para tudo. Esse aspecto de “tudo pode acontecer” é um dos grandes acertos da série desde seu episódio inicial - obviamente entendemos que há um limite que o roteiro dificilmente cruzaria, mas alguns danos colaterais são inevitáveis, como vimos no final da primeira parte da quarta temporada.
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Série "Ozark", da Netflix Crédito: STEVE DIETL/NETFLIX
É interessante a escolha narrativa feita pelo texto de brincar com as expectativas da audiência. Quando o trailer do arco final foi liberado, muitos reclamaram de spoilers, mas o roteiro brinca justamente com isso para manipular o espectador, e o faz de forma bem inteligente, logo mostrando que os últimos episódios não serão exatamente o caos que se espera.
Ao invés de optar pela confusão, “Ozark” continua desenvolvendo a tensão e a leva ao limite, como fica claro em uma sequência de confusão no trânsito. Chega a ser quase irônico o cenário para uma trama tão conturbada ser os paradisíacos e tranquilos lagos de Ozark. Algumas cenas, com conversas sobre quem vive ou morre, têm o canto de pássaros ao fundo, um contraste que cria a identidade da série, a tranquilidade em meio ao caos e vice-versa.
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Série "Ozark", da Netflix Crédito: STEVE DIETL/NETFLIX
Em seu episódio final, “Ozark” brinca com a ironia e provoca o espectador a resgatar lembranças da série. Um acontecimento se conecta diretamente a um ponto crucial na relação de Wendy e Marty, algo mostrado na primeira temporada. Os episódios finais lidam com as cicatrizes, ficando mais escancarado em todo o arco com o pai de Wendy e a guarda das crianças.
O que diferencia “Ozark” de outros dramas de pessoas comuns levadas ao limite é não haver a dinâmica de vilão da temporada. Desde o primeiro episódio, é o cartel quem antagoniza com os protagonistas e o mais interessante é vê-los se tornar uma coisa só. Diante de nossos olhos, os Byrde, ainda que relutantes, se transformam no cartel e passam a agir como eles; a partir de certo ponto, nada importa além da família. É com essa dinâmica que a série acaba se aproximando de narrativas como “Peaky Blinders”, por exemplo, mas oferecendo uma saída ao espectador, torcer por Ruth.
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Série "Ozark", da Netflix Crédito: STEVE DIETL/NETFLIX
A personagem de Julia Garner é complexa, como dito no início do texto, e o coração da série, o Jesse Pinkman da vez. É Ruth quem, temporada após temporada, lida com perdas e conquistas, com todos os percalços enfrentados por alguém sem privilégios, é ela quem não teve outra opção senão ser parte daquele esquema, e os roteiristas entenderam isso ao oferecer a ela, e não aos Byrde, a história de redenção.
Ao fim de seus 44 episódios, “Ozark” é uma série que se beneficia por uma trama enxuta e sem a necessidade de ser esticada mais do que o necessário. Ao ter a história contada em quatro temporadas, a série consegue explorar claramente o início, o meio e o fim com uma cadência que nunca atropela a expectativa da audiência.
A melhor série original da Netflix chega a um controverso fim levantando questões sobre a jornada que o espectador acompanha desde 2017. As últimas duas frases da série são de uma crueldade sem tamanho, mas resumem perfeitamente o que acabamos de assistir, deixando claro a selvageria produzida em meio à tranquilidade dos lagos e das belas paisagens.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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