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Crítica

"O Urso", do Star+, é facilmente uma das melhores séries de 2022

"O Urso" ("The Bear") é estressante e tensa, mas também divertida e emocionante. Série do Star+ mostra o caos e a toxicidade de uma cozinha profissional

Publicado em 12 de Outubro de 2022 às 01:15

Públicado em 

12 out 2022 às 01:15
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
"O Urso" acompanha um chef renomado às voltas com o restaurante familiar à beira da falência Crédito: Star+/Divulgação
Um estudo realizado na metade de 2021 mostrou que cerca de 90 mil restaurantes fecharam as portas durante a pandemia nos EUA. A pesquisa da The National Restaurant Association (Associação Nacional dos Restaurantes dos EUA) parou de atualizar os dados desde então, pois não considera ser possível mensurar, de um ano para cá, se o estabelecimento realmente fechou suas portas devido em função da pandemia. Estima-se que boa parte desses restaurantes tenham reaberto suas portas e retomado o funcionamento, mas também entende-se que um número de até 20% deles tenha encerrado as atividades de vez. De qualquer forma, o mundo obviamente não é o mesm.
“O Urso” (“The Bear”), que estreia nesta quarta (12) no Star+ (com certo atraso), é um retrato desses novos tempos. A série acompanha Carmen 'Carmy' Berzatto (Jeremy Allen White, de “Shameless”), um premiado chef que comandava a cozinha de um dos melhores restaurantes do mundo, em Nova York, mas retorna para Chicago após a morte do irmão mais velho, Michael, dono do restaurante da família, uma casa especializada em sanduíche italiano de carne. Logo descobrimos que o restaurante está cheio de dívidas e sem dinheiro para pagar fornecedores e funcionários, mas Carmen contrata a jovem Sydney (Ayo Edebiri) como sous chef, pois quer transformar a cozinha do restaurante familiar em algo mais profissional. Como curiosidade, ambos atores fizem cursos de culinária em preparação para o papel; Jeremy Allen White chegou inclusive a trabalhar durante um mês no restaurante Pasjoli, na Califórnia, estabelecimento com uma estrelha do guia Michelin.
A série criada por Christopher Storer ("Ramy" e "Oitava Série") tem início em meio ao caos, quando Carmen acorda de um cochilo para preparar a cozinha para um dia agitado, o padrão da série. “O Urso” é incrível na maneira como filma a cozinha como um lugar caótico e sempre em movimento. A série usa cortes rápidos, barulhos de legumes picados potencializados pela mixagem de som, assim como os sons de panelas e facas batendo contra tábuas ou sendo afiadas. A cozinha da série não é um lugar lúdico, pelo contrário, é ameaçadora e intimidadora.
“O Urso” alterna entre sequências na cozinha, sempre caóticas, e uma narrativa mais convencional fora dela. Carmen lida com a morte do irmão, mas também com os traumas desenvolvidos no ambiente de cobranças e pressões que é a cozinha. Ainda, ele tem que lidar com Richard (Ebon Moss-Bachrach), o “primo” que comandava o restaurante ao lado de Michael, e Natalie (Abby Elliott), sua irmã com quem pouco fala desde a morte do irmão.
Crédito:
O roteiro nunca se preocupa em apresentar didaticamente personagens e contextos, os desenvolvendo gradualmente ao longo dos oito episódios da primeira temporada. O texto aproveita ao máximo os 28 minutos de cada episódio (o sétimo é menor e o oitavo, maior) para recriar a sensação de corrida contra o tempo (o relógio é sempre um elemento na série) de Carmen e seus funcionários resolvendo problemas e servindo sanduíches. A presença de Sydney, também uma novata naquele ambiente caótico, faz com que nos identifiquemos com ela de imediato, afinal, a surpresa dela é também a nossa.
A cidade de Chicago é um personagem interessante na série, da música de Sufjan Stevens (nascido em Detroit, mas autor da canção “Chicago”, do ótimo disco “Illinoise”) a referências a atores, atletas e costumes da cidade, um grande centro, mas ainda distante do glamour de Nova York. Richard representa a cidade, as tradições e a truculência da tradicional máfia italiana de Chicago; é o sujeito que, após uma confusão se instaurar do lado de fora do restaurante, parte em busca de sua arma para resolver tudo.
Série
"O Urso" acompanha um chef renomado às voltas com o restaurante familiar à beira da falência Crédito: Star+/Divulgação
“O Urso” também é um ensaio sobre o tóxico ambiente da cozinha de grandes restaurantes, um ambiente dominado por homens tratados como geniais e acabam acreditando que de fato o são. O texto trata da toxicidade da masculinidade na figura de Carmen, um sujeito consumido pelas exigências da cozinha e que viveu parte da vida obcecado por ser o melhor, para se provar perante os seus. Carmy está sempre à beira de explodir, entre o brilhantismo profissional e o fracasso como pessoa.
É em seus personagens que “O Urso” tem sua força. Carmy e Sydney representam lados opostos do talento culinário. Ambos são apaixonados pela cozinha, mas a enxergam de forma distinta - é quase como se ela representasse a pureza da profissão e ele, uma pessoa desgastada pela pressão, alguém que reproduz o que foi feito com ele normalizando um comportamento agressivo e o clima pesado. Também merece destaque o Marcus de Lionel Bryce, o padeiro do restaurante que se transforma em um chef Pâtissier em busca de perfeição em suas criações; o brilho no olho de Marcus e seu prazer com as receitas são encantadores. Os outros coadjuvantes, como Tina (Liza Colón-Zayas), Ebraheim (Edwin Lee Gibson) e Fak (Matty Matheson) também são ótimos personagens e peças que nos ajudam entender aquele ecossistema.
Série
"O Urso" acompanha um chef renomado às voltas com o restaurante familiar à beira da falência Crédito: Star+/Divulgação
A nova série do Star+ constrói a temporada inteira para chegar a seu clímax no sétimo episódio, quase todo realizado em um plano-sequência de puro caos no restaurante - com um fone de ouvido, é impossível acabar o episódio e não continuar ouvindo certo barulho. O episódio é um dos melhores momentos da TV em 2022 justamente por ser pontual na representação de uma cozinha em meio ao caos (palavra usada com frequência neste texto). É ele também que permite os subsequentes momentos de calmaria do episódio final da temporada, com Carmen se entendendo como parte do problema e se abrindo diante do público em um monólogo de quase oito minutos sobre sua relação com o falecido irmão.
“O Urso” é uma história sobre o comportamento masculino tóxico, mas é também sobre relações e diferentes formas de lidar com o luto. A série é caótica e estressante, mas é também divertida e emocionalmente devastadora. Ao final, a temporada se encerra ironicamente num tom de otimismo que abre diversas possibilidades para as temporadas que ainda virão, e é interessante como esse tom foi construído, sob nosso olhar, sem que percebêssemos ao longo dos oito episódios. “O Urso” é uma das melhores séries de 2022 e facilmente uma das melhores dos últimos anos.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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