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Crítica

"Milagre na Cela 7", da Netflix, é dramalhão feito para comover

Fenômeno turco da Netflix, "Milagre na Cela 7" utiliza linguagem de novela para contar trama fácil e universal sobre um homem com deficiência intelectual preso injustamente

Publicado em 20 de Abril de 2020 às 19:55

Públicado em 

20 abr 2020 às 19:55
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Filme
Filme "O Milagre na Cela 7" Crédito: Netflix/Divulgação
Durante muitos anos, a Turquia foi um país importador de novelas latinas, principalmente as brasileiras e mexicanas. Na virada dos anos 2000, porém, os produtores locais perceberam que poderiam produzir seu próprio conteúdo voltado para sua própria cultura e seus próprios costumes.
A Turquia é um país conservador, com o islamismo como principal religião, mas também com muitos cristãos, um país com cultura particular devido tanto à influência do Oriente Médio quanto à europeia. Assim, a dramaturgia desenvolvida por lá abraçou a influência latina, mas mergulhou nos costumes locais - as novelas seguiam o modelo narrativo dos dramalhões mexicanos enquanto tentavam emular a qualidade técnica das produções brasileiras, referências no mundo. O resultado foi uma indústria forte e exportadora. Em 2017, por exemplo, a novela “Amor Eterno” (“Kara Sevda”) ganhou o Emmy Internacional de Melhor Telenovela. Por aqui, a Band há algum tempo exibe obras como “Mil e Uma Noites”, “Sila - Prisioneira do Amor” e “Fatmagul”.
Em um país de tradição novelística tão forte, a linguagem das novelas, claro, invade o cinema. Há exceções óbvias como os filmes do cineasta Nuri Bilge Ceylan, responsável pelos ótimos “Era Uma Vez na Anatólia” (2011), “3 Macacos” (2008) e “Sono de Inverno” (2014), mas a regra é clara: o cinema comercial turco é fortemente influenciado pelas novelas.
Por que falar de novelas? Indaga o leitor. A resposta é simples: “Milagre na Cela 7”, fenômeno turco da Netflix sobre o qual as pessoas não param de falar nas redes sociais, é um grande novelão.
Refilmagem do sucesso sul-coreano de mesmo nome lançado em 2013 (há também uma versão filipina lançada ano passado), o filme do diretor Mehmet Ada Öztekin conta a história de Memo (Aras Bulut Iynemli), um homem provavelmente dentro do espectro autista (não fica clara sua condição) que acaba injustamente acusado de matar a filha de um militar do alto escalão. Pai solteiro de Ova (Nisa Sofiya Aksongur), ele precisa provar sua inocência se quiser voltar a ver a filha. Mas como fazer isso?
“Milagre na Cela 7” desde o início deixa claro a sua vocação para o dramalhão. A trilha sonora cheia de pianos e violinos já apela ao sentimentalismo no momento em que somos apresentados ao ambiente e aos protagonistas.
O aspecto novelístico não se resume à narrativa, a estética de “Milagre na Cela 7” também é muito mais próxima da dramaturgia televisiva do que do cinema - e não há problema nisso, é apenas uma escolha para se aproximar de um determinado público.
Filme
Filme "O Milagre na Cela 7" Crédito: Netflix/Divulgação
Direção e roteiro entregam seus personagens com simplicidade - o vilão, por exemplo, está sempre com um cigarro nas mãos, envolto em fumaça, nas sombras. Desde o primeiro momento em que ele surge em tela, o que antecede o fato catalisador da trama, já se sabe que aquele sujeito é vilanesco. De outro lado, os personagens que terão uma história de redenção também são facilmente identificáveis.
“Milagre na Cela 7”, como bom filme feito para emocionar, acerta ao entregar vários clímax ao longo da trama, sempre buscando a lágrima da audiência, mas é superficial em diversos outros aspectos. O filme tem bons momentos, como a interação de Memo com os outros presos, ponto que merecia mais destaque ao invés de poucas boas cenas. O roteiro também poderia explorar a dúvida, o mistério, mas opta pela narrativa mais simples.
O fenômeno turco da Netflix tem suas qualidades. Ele abraça o dramalhão novelesco e a linguagem de TV como maneira de entender seu público e dialogar bem com ele. O filme também conta uma história universal de amor, saúde mental e corrupção - não à toa suas adaptações rodam o mundo. “Milagre na Cela 7” vem numa embalagem pronta para consumo, é clicar e se emocionar, mas as lágrimas não necessariamente fazem dele um bom filme.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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