Ao marcar a entrevista com a rapper Karol Conká, a minha ideia era falar de música, do lançamento do ótimo "Urucum", seu novo disco. Ao receber o release do álbum, no entanto, o primeiro parágrafo já falava da conturbada participação da cantora no "Big Brother Brasil" de 2021. Será impossível, hoje, dissociar Karol de tudo o que aconteceu no programa?
"Não dá! Não dá! Neste momento é possível dissociar a personalidade, o meu comportamento daqui com o que foi lá, mas é impossível não comentar sobre o assunto porque afinal de contas foi um caos, um baque, foi um trauma pra mim e acho que pra todo mundo", conta Karol, durante a entrevista por chamada de vídeo realizada na tarde do dia 29 de março.
Karol Conká viveu o caos, a loucura da rejeição no auge da cultura do "cancelamento", com os nervos à flor da pele em um momento da pandemia em que tudo ainda era incerto. "Urucum" é um reflexo da artista que o Brasil passou a gostar de odiar. Gravado no próprio estúdio da cantora e com produção de Rafa Dias, o RDD, do inovador ÀTTØØXXÁ, o disco traz personalidades diferentes de Karol Conká, como em um conflito interno em busca de paz e autoconhecimento.
"A gente brincou muito com as personalidades que eu tive, que eu tenho (risos), que nós temos... Todo mundo tem, a gente só não as nomeia, mas a minhas têm nome: Jaquepá Tombá, Karol Conká, Mamacita, Karoline", brinca Karol.
"Urucum" tem uma grande variação de ritmos e influências que se encontram no que BNegão chamou de música negra universal. "Fuzuê" abre o disco com um berimbau e uma levada dançante, enquanto "SeSai" brinca com ritmos latinos e "Mal Nenhum" é um trap cadenciado usando o autotune como efeito vocal. Em comum, as músicas de "Urucum" têm a voz marcante de Karol Conká, que também traz novas dinâmicas vocais ao repertório da rapper.
Em "Slow", quase uma "love song", Karol explora um lado mais suave e grave de seu alcance. O mesmo acontece em "Por Inteira", música que surgiu de um improviso registrado por RDD. "O Rafa falava 'você deve usar mais esse seu timbre, esse seu grave'. Até então eu achava que era algo que não combinava comigo, algo que eu sei fazer, mas que não combina, pois eu sempre tive uma visão limitada do meu trabalho. Esse processo criativo me trouxe uma outra percepção sobre meu canto"
Mesmo que falemos de mudanças sonoras, "Urucum" é um disco que carrega a identidade de Karol de forma muito forte - ou, melhor, as identidades. A Karol Conká dedo na cara e assertiva continua presente, mas sem medo de se mostrar vulnerável em outros momentos. "Agora eu tô buscando um novo jeito de dar o rajadão sem machucar (risos). Eu tô aprendendo a não atacar quando eu me sinto atacada", pondera.
"Urucum" ganha os palcos pela primeira neste sábado (02), em Vitória, quando Karol se apresenta no show do Bloco do Silva. Na entrevista abaixo, Karol Conká fala de coração aberto sobre sua participação no "BBB" e também sobre a produção do disco. Confira.
Eu pensei: vou falar com a Karol Conká, o disco novo tá massa, vamos falar de música, nada de BBB, mas aí eu abro o release e o disco é todo relacionado com BBB. Hoje é algo indissociável, a Karol Conká da participação no BBB?
"Urucum" tem a sua identidade, a sua voz é muito marcante, sua métrica, mas tem umas coisas diferentes. Tem muita referência de música africana, muita coisa de trap, tem umas batidas de funk... Como foi a construção dessa identidade? Tem muita influência do Rafa Dias (RDD) na produção?
É quase uma love song, né?
Foi feito no seu estúdio?
É engraçado você falar isso agora porque eu não tinha percebido no disco, mas tem. O disco tem momentos mais suaves. Sua cantada sempre foi muito pra cima, "dedo na cara". Essa é uma das personas que você construiu?
Tem mais de um ano que você saiu do BBB e nas redes já rolou um "volta, Mamacita". Rolou um de cancelada a "que saudades da Karol". Você sente isso?
É uma saudade de ter raiva de alguém, né?
O rap brasileiro talvez viva hoje o seu ápice de popularidade. Se ano passado não estivéssemos vivendo a pandemia, você teria aceitado o convite do BBB ou teria aproveitado esse momento da música?
Voltando ao disco, você e o RDD vêm de escolas distintas, mas que se encontram na música negra, na essência da música brasileira?
Você falou que ele já conhecia o seu trabalho. Você já acompanhava o trabalho dele com o Atooxa?
Quanto tempo foi de produção do disco?
Foi no meio do caos...
É bom ter alguém que te entenda artisticamente em algo tão íntimo como é um disco, num momento complicado pelo qual você tava passando...
A aventura agora é levar "Urucum" pro palco, né? Você voltou aos shows em dezembro. Como foi?
Você viria com o Silva pra cá no início do ano e agora finalmente vem né? (a entrevista foi realizada dia 29 de março).
Nesse momento você acha que a galera tá separando a Karol artista da participação no BBB?