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Paulo Bonates

Vítimas da intolerância bizarra

Eu lhes apresento lides que pegam o grotesco do cotidiano e "declaram morte" a certos costumes

Publicado em 14 de Janeiro de 2019 às 20:09

Públicado em 

14 jan 2019 às 20:09
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Charlie Hebdo Crédito: Divulgação

Eu já lhe falei do atentado terrorista contra o hebdomadário “Charlie Hebdo”, em Paris, que assassinou o gênio de humor francês e caricaturista da publicação. O semanário, de grande circulação, havia escolhido o sacro profeta Maomé como alvo de gozação. Os terroristas profissionais da Arábia não acharam nenhuma graça nisso, como vieram a demonstrar através de bananas de dinamite matando metade da redação e destruindo as salas onde era produzido o semanário.

Não quero discutir as questões morais que envolvem esse tipo de intolerância bizarra que se colocam no lugar da linguagem, da capacidade de falar, da comunicação estética, da inteligência e da razão como fez ironicamente o principal caricaturista Stéphane Charbonnier, vulgo Charb, através de seu Pequeno Tratado da Intolerância, um livro onde com o mais fino dos humores mostra como fazer “terrorismo”.

Tomo a liberdade de lhes apresentar alguns lides do compêndio citado, que pegam o grotesco do cotidiano e “declaram morte” a certos usos e costumes. Respeitável público, lá vão as farpas que selecionei ao acaso no texto.

“Morte às brigas de especialistas”: você está jantando com amigos. O ambiente é bom e o vinho corre solto, as conversas andam fluidamente, quando na mesa ao lado dois entendidos em cinema começam a discordar do tamanho do seio de uma atriz. E não param mais.

Em “Morte aos Reclames”, manda lá: os animadores de TV concordam uns com os outros independentemente da emissora. Vendem os produtos como se fossem notícias.

“Morte ao Voto Útil”: os folhetos pré-eleitorais são particularmente eficazes na caça aos idiotas. Não que o número deles aumente nesta época. Simplesmente saem da toca. Basta conversar um pouco e deixarão um rastro que os denunciam. Só lhe resta sair de fininho.

“Morte aos Chinelos de Dedo”: para você, é provavelmente mais fácil usar chinelos de dedo na praia de Argèles-sur-Mer do que caminhar em um terreno minado no Afeganistão. Entretanto, nos dois casos, corre o risco de perder os pés.

”Morte aos Decoradores de Restaurantes”: os preços do cardápio não mudam nada, a qualidade dos pratos menos ainda. Mas todos têm um ponto em comum, a decoração de mau gosto. Quantas vezes você já teve que ficar de frente e não conseguir escapar dos desenhos de arte cretina que cobrem certas paredes?

“Morte aos Carecas de Peruca”: em vez de brigar com a natureza que fez você feio desse jeito, pense um pouco. A natureza nada produz de bonito, nada produz de feio. Boa menina que ela é, apenas produz.

Sossega, Charb, você merece descanso.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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