Todo dia de eleição, saio da Afonso Cláudio, nascida Rua da Jaca, na Praia do Canto, diretamente do tradicional e secular Santa Luzia, o primeiro prédio da via. Não é pouco meu sacrifício para votar. E meu destino é o colégio Sacré Coeur, a poucos metros dali. Meu adorado neto Bento Bonates sobe essa ladeira todos os dias a bordo da minha filha Paula, sua mãe, para realizar o cotidiano escolar.
Para cumprir minha missão cívica, tenho que atravessar a ilustre Avenida Saturnino de Brito, de olho no Grand Prix da Praia do Canto, que atualmente cultiva a velocidade média de 120 quilômetros por hora. Quem se distrair morre. São duas vias paralelas e 60 segundos para a travessia dos pedestres em sinal verde. Até hoje nunca me pegaram.
Seja qual for a idade dos atletas, é necessário fazer um pit stop na pista gramada do meio. Por precaução e pavor, vou me escondendo atrás das árvores, enquanto os veículos passam disparados. Só atravesso quando me sinto apto a votar, isto é, permanecer vivo.
Inicio a sacra ladeira. Conheci em priscas eras algumas entradas laterais. Antigamente, para chegar ao Iate Clube bastava pegar uma ruela lateral para cair direto no salão de festas. Esse tempo já passou, mas lembro muito bem da noite em que Wilson Simonal apresentou “Samarina” para a juventude praiana.
Êpa, minha senhora, vou voltar para a conversa.
Continuo subindo, olhando as belas casas. Lembro que o talentoso Carlos Galileu Porto mora lá. Foi o primeiro infectologista que conheço, no tempo da Aids, a fazer um prognóstico de tempo. No alvo.
Mais adiante, ainda hoje, vislumbro uma casa de três andares, consultórios de psiquiatras brilhantes, Edson Dias e Renatinho Ribeiro, que ainda por cima acumulavam os ofícios de jornalistas na Rádio Espírito Santo e O Diário. E Guilherme Lara Leite, o príncipe de Baependi, Minas.
Chego ao portão de ferro, que limita a colégio, no caso eleitoral. O bom é que são sempre as mesmas famílias que habitam neste dia o espaço, parte da democracia. Os mesmos mesários e os mesmos eleitores. Dá gosto ficar naquela fila.
Afinal, há muitos anos, o destino nos escolheu e somos todos doces sorrisos, conhecendo ou não conhecendo a pessoa, naquela convivência de pouco tempo e de muita profundidade, que nos reserva o prazer de estar ali. Dá gosto ver a gente, geralmente da Praia do Canto, mandando um pouco no próprio país.
Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está abrilhantando os pelos para a próxima aventura.