A senhora conhece alguém que detenha um objeto sem valor reconhecido, protegendo-o com a própria vida, se for preciso? Um velho e surrado travesseiro que deve durar desde a infância até seu falecimento, por exemplo. Como por encanto, algumas pessoas adquirem uma dependência de sua posse. Não viajam sem isso, só dormem com isso. Alguns são batizados. Tenho uma amiga que mantinha vivo seu “cheirinho” desde a infância até o acidente que o destruiu, já aos 20 anos, quando sua mãe em um ataque de sanidade lavou com água e sabão o que dezenas de psicanalistas em todo mundo chamam de objeto transicional.
E assim funciona. O objeto, como uma parte concreta – travesseiro – e uma parte imaginária, isto é, representações do mundo interno da pessoa, portanto insubstituíveis. Alguns teóricos (e dentistas) excluem a chupeta do rol dessas representações. Isso leva alguns pais adoecidos, sem saber, a praticarem violências e subornos para seguir a regra de abstinência dos citados objetos de dependência necessária. Diz o humor nacional que as chupetas sempre voltam especialmente disfarçadas nos blocos e músicas de carnaval. E etc e tal.
A paixão patológica, que leva muitas vezes à agressão a pessoa “amada”, teria relação com este conceito? O abandono, ou separação não consensual, tenho observado, está presente em crimes passionais, onde a razão e as consequências são insuficientes para impedir a “retomada” do, como disse Chico Buarque em uma canção, “pedaço de mim, da metade afastada de mim”. Ora, direis, mas as mulheres não fazem isso com os homens.
Calma, respeitável público, há maneiras sutis de ferir um pai, por exemplo. Mesmo um presidente da República. Um homem muitas vezes não tem a sorte de aproximar-se o suficiente dos filhos quando separados da esposa. Como os sistemas sociais e os costumes são por tradição centrado no homem, os que quebram as regras dos relacionamentos oficiais, quando se separam, devem pagar essa conta, que, às vezes, é interminável.
Claro que a violência contra a mulher, ou qualquer pessoa, trata-se de um sintoma silencioso e não justificável. Estamos conjeturando explicações possíveis para a lógica e o direito. Pensar não dói. Aliás, o presente quadro social brasileiro está carente disso.
A sociedade parece carecer de um espaço onde todos - absolutamente todos - possam ser ouvidos e ouvir saindo fora do sofrer ou brigar. Uma democracia é feita também de respiradouros para as angústias do viver.