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Paulo Bonates

Pensar com os pés no melhor para o Brasil

Respeitável público, o Brasil precisa como nunca de um diagnóstico. Vamos do estrito para o lato sensu

Publicado em 11 de Fevereiro de 2019 às 21:35

Públicado em 

11 fev 2019 às 21:35
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Pés na areia Crédito: Pixabay/Divulgação

Com os dedos dos pés acariciando a marola da beira do mar, pensava - uma coisa de cada vez – no país conversando com uma amiga, rainha das flores e da delicadeza. A praia oferece uma superfície escanteada, árvores frondosas, muito bem nascidas, como se tivessem vindo a terra dispor. Sua presença oferece um incentivo a qualquer criatura para pensar. Pensar o país, pensar filhos e netos, pensar nós próprios integralmente, a convivência necessária com o alter. Senhor Sartre, o céu é o outro.

Respeitável público, o Brasil precisa como nunca de um diagnóstico. Vamos, como se diz, do estrito para o lato sensu. Simples assim. O Paraguai vende combustíveis para o povo muito mais barato do que aqui, onde se rouba o país sem cerimônia. E olha que eles não produzem uma única gota de petróleo, por exemplo.

Isso só pode ser explicado pelos especialistas educados para usar as palavras como peças de um xadrez mambembe, onde tudo pode significar qualquer coisa. Talvez Chacrinha, na sua irreverência, diria que no Brasil conta-se com uma margem que vira daqui, explica dali, e sempre sobra algo para ser desviado.

A Venezuela, uma das maiores produtoras do dito óleo do mundo, não consegue ficar com os lucros. Ainda me lembro do tempo em que se dizia que o Brasil não tinha petróleo. Não tinha mesmo era permissão do império para ter. Quando o povo saiu à rua gritando “o petróleo é nosso”, apareceu do nada.

Idem com a borracha do Amazonas, que era levada a preço de banana. A população ribeirinha colhia com as mãos o leite das seringueiras. Esperavam o regatão com o atravessador e voltavam para morrer de malária e fome. Daí os patrões do primeiro mundo faziam pneus para nos vender ao preço que lhes apetecesse. Dizia-se que “a borracha é nossa, mas está na mão do guarda”.

Essa relação perversa com o patrão que paga muito mal ao país subordinado, implanta a miséria. Dizem que os futurólogos de plantão realizaram uma enquete sobre a saída do Brasil chafurdado nas inúmeras lamas da corrupção. Algumas delas, a própria natureza expõe em carne viva, onde a corrupção mata com força. É o caso de Mariana e Brumadinho. A pesquisa foi clara. Que dizem os otimistas? Que dentro de dez anos os pobres estarão comendo lixo. E os pessimistas? Que o lixo não vai dar pra todo mundo.

Assim é que, com os pés, penso com as ondas, e minha boa amiga vai clarificando certos aspectos de minhas incertezas. Na verdade, prefiro as dúvidas. Estas são o derradeiro estágio do pensar.

* O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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