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Crônica

Pedro Álvares Cabral, Almodóvar, a morte e o morrer

Sabemos e não sabemos que todos vamos morrer. Talvez a ideia da viagem ao desconhecido queira nos proteger da solidão na Terra e nos apresentar a morte ou um outro fim como finalidade, o desconhecido. Como um descobrimento

Públicado em 

10 dez 2024 às 00:11
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Quando Pedro Cabral chegou ao Brasil, achando que estava na Índia - vamos perdoar, era português -, aportou suas caravelas de guerra com um montão de canhões atirando em direção à praia da Bahia. Pegou a luneta e foi verificar a resistência da população nativa, estavam todos nus e seminus, dançando e cantando, saudando os invasores em meio às explosões.
O oficial imediato previu:
- Isso não vai dar certo...
Daí em diante, meus fiéis leitores, não mudou nada.
O povo de hoje tem que dançar e cantar para o poder, mesmo diante das atrocidades financeiras e outras.
Temos que tolerar crimes hediondos de cima para baixo, como o voto obrigatório, o roubo descarado nos orçamentos secretos, os golpes de Estado sazonais e a insuportável impunidade para os que mandam em nós e no dinheiro do país, tudo oficialmente e legalizado.
O mundo não faz diferente. No momento em que vos escrevo, o que acontece? A Rússia ameaça todos nós, e ela própria, com a atividade nuclear. No Oriente Médio, são tantas guerras contra vários países que não dá para entender, e ainda tem a Ucrânia em chamas, as matas amazônicas destruídas… Isso é só uma amostra.
Há os que falam, mas ninguém escuta: “O ser humano é inviável”, como disse Millôr Fernandes.
Então, vou lhes contar.
Georg Groddeck, médico, reformador social e filósofo alemão, estudava a morte e o morrer e, claro, o nascer. Ele achava que conhecer é duvidar, crer é não duvidar. Já lhes disse que a dúvida é a derradeira e definitiva instância da relação com o outro, com o mundo. A certeza é autoritária, praticamente “nazista”.
O filósofo alemão jamais se submeteu à análise para sua formação, calculava conscientemente, por exemplo, a certeza de que viemos todos de um lugar desconhecido e prosseguiremos como um trem da Leopoldina que fez uma parada em uma estação e seguiu viagem. Como, aliás, fazia Cabral e suas navegações.
Para Groddeck, a ideia fixa de viajar para o desconhecido, que paira no imaginário social desde que o mundo é mundo, tem raízes no inconsciente de cada um: desejar escolher o ponto final, mas ficar na dúvida se haveria outros caminhos. Ao nascer, morremos. Alguns, pouco a pouco.
As ciências – humanas e desumanas também – debruçam-se em reflexões, estudos sobre as nuances do morrer, o significado dos rituais e - last but not least – o momento em que alguém pode dar conta e possuir seu próprio desejo.
Aliás, disso trata o filme brilhante de Almodóvar, “O Quarto ao Lado”.
Filme O Quarto Ao lado, de Almodóvar
Filme "O Quarto Ao lado", de Almodóvar Crédito: Divulgação
Sabemos e não sabemos que todos vamos morrer. Talvez a ideia da viagem ao desconhecido queira nos proteger da solidão na Terra e nos apresentar a morte ou um outro fim como finalidade, o desconhecido. Como um descobrimento.
Dizia um senhor que não tinha medo de morrer.
Só não queria estar presente.
Nem eu.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, diz que é imortal.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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