Possuía um rádio portátil Philips lá em casa. Tínhamos que deduzir o que ouvíamos dos locutores. Lembro que no jogo decisivo da Copa daquele ano, justo contra a dona da casa, a Suécia, sentado na calçada de canudo e canequinha, podia construir na minha imaginação toda a cena do jogo. Tendo visto apenas fotos dos jogadores, construí as imagens de Pelé, Castilho, Zagallo, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Joel, Mazzola e o meu predileto, Dida, em cujo lugar entrou o Rei do Futebol. A seguinte foi no Chile e o time praticamente era o mesmo, e a mesmíssima grande Vitória.
Depois, quando eu mais esperava pela Jules Rimet, a taça, e torcia pelos meus imaginados e idolatrados representantes do futebol verde e amarelo, uma tragédia ocorreu em 1966. Os heróis não funcionaram, por mais que imaginasse e torcesse, embora o rádio de pilha fosse mais eloquente.
Vale informar que a ditadura de 64 promoveu um carnaval caótico de convocações e o autoproclamado presidente da República chegava a sugerir a escalação o time. Para fazer mídia, convocaram em um dado momento um número absurdo de jogadores. Deu no que deu.
Em 1970, já havia televisão – só preto e branco – no Brasil. A magia das telinhas, tão caras como raras. Surgiu a modalidade de confraternização, o tele-vizinho. Era um espetáculo, mesmo com a imagem repleta de chuvisco. Daí o Brasil ganhou a Copa no México.
Depois dessa era do rádio e da TV fantasma, a seleção enguiçou. Os gênios do futebol morreram ou envelheceram.
Havia uma lei que dificultava, quase proibia a venda de jogadores para fora do país, de modo que no intervalo de quatro anos entre as Copas, dezenas de torneios e campeonatos no Brasil serviam de treino. Os jogadores se conheciam. Imaginem um treino de quatro anos. Hoje em dia não chega a dois meses.
A maioria dos jogadores do esporte bretão de hoje não jogaria no nosso time de areia da Praia do Suá. Quando alguém aprende a arte é convocado para ser vendido e a distribuição de grana para dirigentes e atletas infiéis é, na minha modesta opinião, de fazer inveja ao Sérgio Cabral.
O esquema é engordar o jogador e vender. A sedução paira entre meninos pobres de periferia que passam a ser felizes de dinheiro. Ganham o amor sincero das dondocas brasileiras, que passam a adorar futebol desde criancinhas.
De vez em quando surge um Neymar tão submetido ao sistema empresarial que hoje em dia está proibido de sentir dor. Deixou, então, que lhe quebrassem alguns ossos do pé para satisfazer a torcida.