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Crônica

A confusão sobre as drogas no Brasil: seria cômico se não fosse tragicômico

O problema é difícil, já que os que legislam e interpretam a lei sobre o assunto divergem do ponto ideológico e sobre a natureza do enfoque

Públicado em 

09 jul 2024 às 01:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

As altas e sempre contraditórias instâncias mandantes do país estão imersas em dúvidas atrozes sobre o que seria cômico ou tragicômico no uso de substâncias psicotrópicas, uma confusão ilegal.
Refiro-me às substâncias que nem sequer foram alvo de pesquisas científicas competentes pelas instâncias técnicas. Sem nenhum experimento suficiente, ou talvez baseados em relatos simples de hospitais ou pareceres de que até Deus duvida, são consideradas dosagens bandidas, sujeitas à repressão e a um montão de regras raramente cumpridas. Assim é que a todo instante a dúvida toma conta do que deveria ser definição, já que precisa legislar – pasmem – sobre o desconhecido.
As definições legais sobre essa ordem vêm sendo alteradas há muito tempo e frequentemente. Sem qualquer estudo científico confiável são definidos e redefinidos limites legais sobre a dosagem de cocaína, maconha e outras milongas mais. São estabelecidas regras de tolerância da concentração de drogas dentro da lei. O problema é difícil, já que os que legislam e interpretam a lei sobre o assunto divergem do ponto ideológico e sobre a natureza do enfoque.
Os critérios mudam, confundem, e estão na maioria das vezes baseados - sem trocadilho - em infelizes palpites.
Por outro lado, ninguém controla preços de farmácia. Na década de 80, mais ou menos, segundo os boêmios, a cada boteco fechado abria-se uma farmácia.
Alguns medicamentos só são vendidos com receitas oficiais de médicos, muitos com a rigidez de cópias carbonadas e carimbo. Entretanto, algumas drogas que considero exclusivas da psiquiatria ou neurologia podem ser adquiridas até com receitas de dentistas. No meu humilde entender, deveria ser exigido no comércio varejista farmacológico a comprovação de titulação de especialistas, mestres ou doutores na área afim.
Outro dia na TV um odontólogo atribuía a exigência da qualificação médica a determinadas medicações, reduzindo a sempre presente “briga de mercado”. O preço da maioria dos remédios indispensáveis explica a vil concorrência.
Não tenho conhecimento de um controle mais sério por ordem da Anvisa dos componentes que constam nas receitas. Além do preço altíssimo, faltam drogas essenciais e ninguém fiscaliza isso.
Neste instante da história, estão sendo divulgados na mídia os previsíveis desastres no corpo realizados por componentes auxiliares das cirurgias estéticas. Além da ganância, os procedimentos são realizados em locais sem equipamentos, qualificação e autorização oficial. O paciente fica nas mãos de Deus e dos anjos para protegê-los. Ou seja, transita de uma proibição cega para uma abertura descontrolada cada vez maior.
De um modo geral, ninguém ou nada protege a saúde do povão, esquentando o corpo doente do sistema público. O bravo povo brasileiro dá os olhos da cara nos impostos para receber um tratamento digno e quase nunca recebe a tempo.
Dizem que na era em que o país pertencia aos nativos, os enfeites ou procedimentos eram feitos de graça, pelo curandeiro. Se morresse, morreria gratuitamente e tatuado.
Não custa lembrar o emblema da falcatrua, o incrível “orçamento secreto”, onde os políticos profissionais nem sequer prestam conta da dinheirama retirada dos nossos bolsos sem controle.
Maconha, droga
Maconha Crédito: Freepik
Por outro lado, um médico, por exemplo, concursado, especializado, com mestrado ou doutorado, passa anos sem receber o devido reajuste salarial, ralando nos prontos-socorros, atendendo (lembrando que cada consulta é uma possibilidade de contágio, é ou não é?) e percebe uma miséria de aposentadoria após 40 anos de amor à pátria.
Amigos, além disso tudo, a plebe rude que vota não entende uma única palavra das sofisticadas explicações das autoridades. Além de falarem difícil, mudam tudo a cada dia. O que chega na boca do caixa do trabalhador é o resultado dessa desrespeitosa confusão. As instâncias do poder conversam entre si e basta.
Agora é a vez da maconha, da cocaína e similares.
O caminho da roça é esse:
De primeiro nem falar sobre.
Depois, proibido em qualquer quantidade.
Depois, permitida alta dosagem
Antes que seja obrigatório, vou morar no Havaí.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda fungando demais.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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