No último dia 29 de março, mais de mil pessoas assinaram uma carta demandando uma pausa de seis meses nos desenvolvimentos de sistemas de Inteligência Artificial (IA) mais avançados que o ChatGPT-4. Esse sistema é um chatbot que foi desenvolvido pela OpenAI, uma organização voltada para pesquisas inovadoras sobre IA.
A citada carta foi uma inciativa do Instituto “Future of Life”, que declara como propósito o trabalho sem fins lucrativos para reduzir riscos enfrentados pela humanidade, especialmente eventuais ameaças de IA avançada. Nela é explicitado que “sistemas de IA com que competem com a inteligência humana podem representar riscos profundos para a sociedade e a humanidade”.
Também reivindica uma interrupção por seis meses nos treinamentos de sistemas mais aprimorados do que o GPT-4 da OpenAI. Tal pausa teria como objetivo possibilitar a estruturação de protocolos de segurança e fluxos de governança sobre as tecnologias de IA.
De imediato algumas questões surgem, a saber, por que esse tempo de seis meses? Esse tempo é suficiente? Tal pausa realmente é necessária para a estruturação dos mencionados protocolos de segurança? Os signatários da carta do Instituto “Future of Life” estão de fato preocupados com a IA, segurança da informação e questões éticas?
O bilionário Elon Musk, fundador da SpaceX, proprietário do Twitter e de outras empresas de tecnologia, foi uma das personalidades que assinaram a referida carta. Vale lembrar que assim que comprou o Twitter por mais de R$ 230 bilhões em 2022, Musk suspendeu inadvertidamente contas de jornalistas e usuários da rede social que acompanhavam e cobriam a sua vida.
Contraditoriamente, menos de um mês após ter assinado a carta do Instituto “Future of Life”, em 18 de abril, Musk anunciou que criou a empresa X.AI Corp e que vem contratando profissionais de IA do Google para lançar o TruthGPT, que pretende ser uma plataforma mais potente do que o concorrente ChatGPT da OpenAI.
Insta salientar que, em 2015, Elon Musk cofundou a OpenAI, porém decidiu deixar o conselho da empresa três anos depois justificando que precisava concentrar seus esforços na SpaceX e Tesla. Os movimentos recentes de Musk podem demonstrar certo arrependimento do bilionário de ter deixado o conselho da OpenAI. Também revelam uma grande contradição no posicionamento de Musk quando da assinatura da carta que pede pela interrupção no desenvolvimento de sistemas sofisticados de inteligência artificial. Preocupação com inteligência artificial ou hipocrisia em defesa de interesses mercadológicos de gigantes empresas do campo da tecnologia?
Bill Gates, cofundador da Microsoft, sinalizou que discorda do propósito da carta do Instituto “Future of Life” e que os pedidos para pausar os treinamentos da IA não resolverão os desafios futuros das tecnologias. Para Gates a mencionada pausa se mostra pouco eficiente, pois nem todo mundo concorda e implementará tal interrupção.
Assim, constata-se que o caminho para trabalhar de forma efetiva as potencialidades e adversidades dessas tecnologias seria discutir melhor, com mais transparência e deixando em segundo plano interesses mercadológicos, para regulamentar mecanismos de segurança e utilização ética ao mesmo tempo do desenvolvimento dos sistemas de inteligência artificial.