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Saúde

Detox vacinal: uma mistura de estupidez e canalhice das fake news

A desinformação é nutrida por interesses político-ideológicos e de um mercado perverso que busca lucrar a todo custo, com base na covarde difusão de medo e mentira

Publicado em 22 de Maio de 2024 às 02:30

Públicado em 

22 mai 2024 às 02:30
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

O mundo passou por momentos críticos na pandemia da Covid-19, essa que se caracterizou como a mais grave crise sanitária dos últimos 100 anos. Graças à ampla mobilização internacional de institutos de pesquisa, universidades, laboratórios e estudiosos, os imunizantes para a doença foram desenvolvidos em tempo recorde.
A mobilização científica possibilitou a produção de vacinas eficazes contra a Covid-19, um marco histórico que pode ser considerado o divisor de águas na gestão de risco da pandemia. A distribuição e a aplicação das vacinas permitiram o controle dos casos confirmados e redução do número de mortes pela doença, ou seja, uma ação que favoreceu os governos salvarem vidas.
Em meio à crise sanitária da Covid-19, o mundo e o Brasil sofreram com as consequências irresponsáveis da pandemia das fake news. As vacinas foram alvos de notícias falsas absurdas de vários tipos, como por exemplo: 1) “vacinas contra a Covid-19 estão relacionadas à transmissão de Aids/HIV”; 2) “o imunizante contra a Covid-19 tem chip líquido e inteligência artificial para controle demográfico”; 3) “a vacina contra a Covid-19 modifica o DNA dos seres humanos”.
O pior de tudo é saber que essas e outras desinformações foram compartilhadas e impulsionadas nas redes sociais por atores políticos que deveriam dar exemplo de equilíbrio e responsabilidade naquele momento da gravíssima crise humanitária. Mais de 7 milhões de pessoas no mundo e 700 mil brasileiros perderam a vida por conta da doença.
Ao invés de dar exemplo, esses sujeitos sem escrúpulos preferiram fortalecer a rede estapafúrdia de desinformação que se intensificou contra as vacinas, ao ponto de impactar na queda da cobertura vacinal de outras doenças no país.
O mais novo ataque contra as vacinas é o tal do “detox vacinal” ou “reversão vacinal”, um farsante “tratamento” que dizem ser eficaz para purificar o organismo de pessoas que tomaram vacinas contra a Covid-19. Em janeiro de 2024, o Ministério da Saúde teve que publicar uma nota para esclarecer os perigos desse falso tratamento, que consiste na administração de dióxido de cloro no corpo humano. Essa substância é altamente tóxica e pode trazer graves consequências para a saúde.
Em abril, o Ministério da Justiça notificou 10 plataformas de comércio eletrônico que vendem o “detox vacinal”. O produto é comercializado nessas plataformas com a falsa promessa de “inativar vacinas” e “curar autismo”.
Dose pediátrica da vacina da Pfizer contra covid-19
Dose pediátrica da vacina da Pfizer contra covid-19 Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
Por mais estúpido e absurdo que pareça ser, ainda existem pessoas que compartilham tal ideia enganosa e se submetem a esse tipo de falso tratamento. A desinformação é nutrida por interesses político-ideológicos e de um mercado perverso que busca lucrar a todo custo, com base na covarde difusão de medo e mentiras.
Essa é mais uma prova de que a estupidez e canalhice de quem compartilha e impulsiona notícias falsas não têm limites. É preciso fortalecer um amplo movimento no Brasil para responsabilizar e punir as pessoas que plantam e espalham notícias falsas, bem como responsabilizar as grandes empresas de tecnologia, que poderiam utilizar proativamente mecanismos para identificar e proibir a difusão de “tratamentos” perigosos, como o aqui comentado.

Pablo Lira

Pos-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve as quartas

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