Na semana passada, abordei a questão fiscal do país, mas especialmente focando as suas consequências, predominantemente negativas, diante de um cenário de risco crescente. O mercado, nesses casos, sempre se posiciona antecipadamente precificando prováveis e possíveis resultados. Esses movimentos são sobretudo espelhados na Bolsa de Valores, no câmbio, nas taxas de juros e na expectativa em relação à inflação, entre outros ativos. Tudo isso, num processo de consenso, acaba afetando também expectativas em relação às atividades econômicas.
Se podemos identificar como hipótese uma relação causal entre risco fiscal em alta, inflação e juros também em alta, e PIB em desaceleração, ainda ficamos a dever explicação, também de natureza causal, e em última instância, para o risco fiscal. Onde, então, encontraríamos elementos capazes de melhor explicar as variações no risco fiscal, que no caso do Brasil estão em ascensão?
Uma resposta aparentemente simples para um problema complexo: a causa está no fato relevante de o governo não conseguir assegurar a redução da distância entre seus gastos e suas receitas, com os primeiros sempre maiores e crescentes, de forma consistente e crível. Ou seja, tende a apresentar déficit crescente, que forçosamente deve ser coberto por financiamentos no mercado, que no caso do Brasil estão sujeitos a pagar juros mais elevados do que na média mundial.
Porém, nem sempre, déficit maior, dívida pública maior, que casa também com incremento da relação entre dívida pública e PIB e outras coisas mais não tão saudáveis, necessariamente implicariam em se ter pela frente situações de risco fiscal crescente ou até mesmo ameaça de explosão inflacionária e comprometimento da eficácia da política monetária. Mas, Brasil é Brasil, onde até o passado é incerto.
O que assistimos no Brasil tem como pano de fundo, e logicamente como fundamento causal maior, a instabilidade no campo da política e das instituições. O que quero dizer com isso é que temos aqui uma forte associação de causalidade entre risco político-institucional e risco fiscal. Em outras palavras, quanto mais cresce o primeiro, mais também cresce o segundo.
Esse clima de tensionamento crescente que ocorre no campo da política e entre as instituições básicas da república, sobretudo engendrado pelos incessantes atentados beligerantes do mandatário maior, funciona como fator desestabilizador e destruidor de formação de expectativas mais favoráveis de médio e longo prazos.
Em síntese, diante de um horizonte onde tende a prevalecer o incerto, o imponderável e, sobretudo, a desconfiança, não é de se esperar um cenário minimamente exitoso. Ao contrário, as sucessivas expectativas que se formarão no campo da economia, por exemplo, estarão espelhando a evolução do cenário no campo da política e das instituições. Eis o imbróglio a ser resolvido!