Se os caminhoneiros achavam que a tabela de preços mínimos de transporte de carga fosse trazer vantagens à categoria, essa não parece ser a realidade. Indicadores do mercado de carga vêm demonstrando que o tiro está saindo pela culatra, prejudicando ainda mais os seus interesses. Fato esse que reforça a tese de que intervenções governamentais em mercados, independentemente de suas estruturas de organização, tendem, na maioria das vezes, a gerar mais instabilidades e ineficiências na alocação de recursos do que soluções duradouras.
O frete, que entra como item básico na composição dos custos e dos preços de uma infinidade de produtos, especialmente aqueles de menor valor agregado, como as commodities agrícolas, quando submetido a variações acentuadas tende a provocar movimentos reativos também significativos. Muitas vezes até inesperados. Caso, por exemplo, do aumento de 18% no transporte feito por cabotagem, depois da greve geral dos caminhoneiros, em maio do ano passado. Isso significa que a elevação do frete rodoviário, em grande parte por conta da tabela de frete, acabou viabilizando outro modal concorrente.
Atualmente, o modal marítimo de cabotagem já pode oferecer preços de frete que chegam a ser, em média, 20% menores do que os praticados pelo modal rodoviário. Isso significa menos cargas para os caminhões, cuja oferta de equipamentos se encontra por demais dimensionada, fruto de uma política equivocada de facilitação do crédito praticada no governo Dilma, e da própria crise econômica, também por ela engendrada.
A tabela de fretes tem também provocado estragos na estrutura do mercado de cargas, tornando-o mais verticalizado e, consequentemente, menos terceirizado. Empresas, sobretudo do agronegócio, em decorrência de elevações dos preços de frete em geral, já vêm alterando as suas estratégias de logística optando pela internalização de suas operações de transporte, descartando, assim, operadores externos. Estes não querem ficar reféns de incertezas e sobressaltos. Para os caminhoneiros, principalmente os autônomos, significa menos oportunidades de trabalho.
É justificada, portanto, a forte reação por parte do agronegócio às intervenções do governo federal no mercado de transporte de carga. Afinal, é onde os impactos se mostram maiores. No caso da soja, por exemplo, produto de baixo valor agregado, a média anual do preço do frete chegou a ser incrementado em cerca de 24%. Já no caso do milho, foi ainda maior: 59% de incremento.
Resumo da ópera: o governo não somente não resolveu o problema dos caminhoneiros, como também acabou tornando-se meio que refém desses. Isso é, somente com a economia crescendo o problema encontrará uma solução estável.