Eu me formei em economia sob os auspícios e hegemonia do que poderíamos chamar de “escola americana”, onde modelos teóricos, muitos deles sofisticados e refinados, pareciam ou pelo menos eram mostrados como reproduções de um "mondo" real. Assim, decisões micros, tomadas como perfeitamente racionais, transcendiam ou eram transladadas para as dimensões da macroeconomia sem arranhões. No abstracionismo, com a prevalência de chamadas condições “coeteris paribus”, tudo se encaixava.
O mundo mudou, ou mais precisamente, novas tecnologias, mas sobretudo tecnologias voltadas para a informação e comunicação fizeram o mundo mudar. E fez a economia mudar. Mudanças essas que as novas teorias econômicas ainda não conseguem alcançar. Talvez por conta das velocidades com que as coisas acontecem.
Para quem é economista talvez se lembre do desafio teórico no lidar com a assimetria de informações em mercados tidos como não perfeitos, ou seja, aqueles sujeitos a imperfeições no acesso a informações por agentes econômicos menos privilegiados. Hoje, pelo menos para aqueles que podem dispor de um bom acesso à internet, não vamos encontrar barreiras significativas.
O certo é que no campo teórico da economia tem crescido a vertente que trabalha o comportamento humano como dimensão e fator importante a influências das decisões, sejam estas de consumo, produção ou investimentos. Trata-se da economia comportamental, que vem respaldada sobretudo pela neurociência.
Mas, curiosamente, vamos encontrar em um médico alemão que viveu entre o final do século XVIII e início do século XIX, Franz Anton Mesmer, o pioneiro a levantar o efeito da hipnose no comportamento humano, que segundo alguns pesquisadores acabou influenciando dois grandes economistas, estes do século XX, Hayek e Keynes. Aliás, Keynes foi estreito confidente de Freud. O que pode explicar a utilização da psicologia no desenvolvimento das suas teorias e em especial na sua maior e mais influenciadora obra “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”.
Achei essa referência valiosa em releitura do livro “Cachorros de Palha”, do filósofo e pensador britânico John Gray. Aliás, não há como existir filósofo sem ser pensador. Mas Gray vai além sugerindo que “o mundo é governado pelo poder da sugestão” (GRAY p. 185), que no campo da economia ele chama de “mesmerismo e a nova economia”, exatamente em alusão a Mesmer.
Fiz todo este preâmbulo em defesa da tese de que os modelos utilizados pelos economistas atuais, por mais complexos, sofisticados e utilitários de “big data” e novas ferramentas tecnológicas, não estão conseguindo alcançar a assertividade que se esperaria nas suas previsões. Não conseguem também fugir das armadilhas de dados e análises ex-post, como também não alcançam ou não incorporam campos das subjetividades.
O PIB brasileiro deverá fechar o ano entre 2,5% e 3%. No final de 2022 as previsões fechavam em apenas 0,8%.