Sou do tempo em que o latim fazia parte das disciplinas ensinadas nas escolas. Em algumas mais do que em outras. No meu caso, de forma ainda mais intensa, pois estudava em escola religiosa. Foram cerca de sete anos de latim e alguns anos de francês. Além do grego clássico, que nos abriam perspectivas de aproximações, mesmo que bem superficiais, com a filosofia helênica, atentando muitas vezes apenas para frases tidas como emblemáticas.
Já naquela época, recordo-me hoje, havia na educação a percepção de que a escola, tida como locus central do processo de aprendizado, deveria ir além de suas “paredes” e ganhar o alcance da vida de pessoas e sociedade. Uma frase bem conhecida, válida para hoje e qualquer época, porém também bem antiga, refletia essa percepção: “Não aprendemos apenas para a escola, mas para a vida”. A frase original é do pensador romano Sêneca: Non scholae sed vitae dicimus.
Pensando bem e observando o “estado da arte” da educação no Brasil, podemos afirmar, ressaltando honrosas exceções e esforços, que a escola aqui nem ensina para a escola, no sentido do conhecer e aprender, nem tanto para a vida, por se achar meio que desconectada do mundo real e de quem a procura ou dela necessita. Em outras palavras, não motiva, não encanta e não oferece conteúdos para narrativas seguras que liguem o presente ao futuro, especialmente para um mundo cada vez mais líquido e digital.
Analisando os três módulos básicos do sistema educacional brasileiro, eles se mostram também desconectados, especialmente no que diz respeito de fazer a passagem do ensino médio para o superior. Se de um lado o desencanto com o ensino médio leva a uma verdadeira enxurrada de evasões, para aqueles que conseguem ultrapassar suas fronteiras o ensino superior também tem suas barreiras, suas incongruências e fragilidade. Sem mencionar a frágil conexão com o mundo do trabalho e com o futuro.
O certo é que continuamos a patinar na educação. O Brasil tem apenas 17% da sua população entre 25 e 34 anos com curso superior completo. Na frente do Brasil encontramos a Colômbia, com 28%, Chile (30%), Portugal (34%), Estados Unidos (48%), países da OCDE (44%). E bem distante, no topo da lista, aparece a Coreia do Sul, com 70%, que na década de 1970 encontrava-se atrás do Brasil. Hoje, a aquela Coreia frequenta o grupo de países classificados como desenvolvidos.
Também vamos muito mal na preparação de alunos do ensino médio para o mundo do trabalho. No Brasil, apenas 9% dos alunos matriculados no ensino médio são atendidos em programas vocacionais. Na Finlândia, esse percentual é de 71%. Isso significa que aqueles alunos que buscam o ensino superior já saem meio que sem rumo.