Não é de hoje que o Brasil vem patinando no enfrentamento do desafio de gerar empregos, e em especial empregos de qualidade e consequentemente de melhor remuneração. Nem mesmo em períodos de maior crescimento econômico, quando se esperaria que teríamos uma demanda mais acentuada por mão de obra mais qualificada. Constatação que nos aponta para um problema que podemos classificar como estrutural e intrínseco ao nosso modelo de desenvolvimento.
Sabemos que crescimento da oferta de postos de trabalho com maior exigência de qualificação, incremento de produtividade, de salários e de massa salarial são elementos constitutivos e intrinsecamente inerentes a processos de desenvolvimento econômico e social. E não é bem isso que vemos no Brasil, e de forma mais contundente nos últimos 20 anos. Lampejos de crescimento apenas serviram para nos alertar o quão distantes estamos do que nos poderia ensejar todo o nosso potencial de desenvolvimento.
Desde 2015, o país vem mantendo o nível de desemprego acima de dois dígitos, variando entre 10 e 14 milhões de pessoas desocupadas. A pandemia agravou o problema, porém, não devemos esquecer que suas raízes já vinham sendo plantadas de forma gradual bem mais lá atrás, e de alguma forma embutidas em erros e omissões de políticas. Em síntese, o que se “paga” hoje é fruto do legado.
Existem vários indicadores capazes de medir a saúde de uma economia e dentre esses podemos ressaltar o nível do emprego, a produtividade do trabalho e os salários. O Brasil apresenta desempenho ruim nesses três itens, mesmo com o aumento do emprego recente.
Basta analisarmos os últimos números sobre o emprego divulgados nesta semana. Foram gerados 196 mil novos empregos em abril deste ano, com um salário médio de R$ 1.906. Menor do que o salário médio dos contratados formalmente em abril de 2021, que foi de R$ 2.089.
A proporção de empregos com salários mais baixos vem crescendo. Dos contratados até abril deste ano 39% ganham até um salário mínimo. Para essa mesma faixa de salários, esse percentual foi de 30% em 2018. Assim, temos simultaneamente uma corrosão de empregos e outra de salários.
Não se pode perder de vista que cuidar da saúde da economia significa cuidar da saúde do povo. Esperamos que assim pensem os pretensos candidatos a assumir o comando do país no próximo ano. Até então, temos somente firulas de retóricas.