O Brasil gastou 30 anos para sair do bloco de países classificados como de baixa renda, considerando-se como parâmetro o PIB per capita médio dos chamados países desenvolvidos, também denominados de avançados, adentrando-se no grupo de países de renda média – PIB médio.
E isso aconteceu entre 1950 e 1980, quando o PIB per capita do país cresceu em média 4,5% ao ano. Um desempenho fantástico. No entanto, nas quatro décadas seguintes – 1980 a 2020 – a renda média do brasileiro apresentou desempenho simplesmente desastroso. Pífios 0,72% ao ano. Forte evidência que nos mantém presos ao que alguns economistas chamam de “armadilha da renda média”. Que pelo visto, para nós brasileiros, vem funcionando mais como “jaula de ferro”.
O conceito “armadilha da renda média” não é um conceito novo. Foi elaborado ainda na década de 50 por um economista americano chamado Willian Arthur Lewis. Ficou imerso por um longo período e agora, em parte em razão da crise de 2007-08, mas, principalmente pelos desempenhos assimétricos das principais economias que passaram a ser denominadas de emergentes, entre as quais destacam-se Brasil, Índia, Rússia, África do Sul e China.
Na assimetria, naturalmente o Brasil se mostra como destaque negativo. Segundo Lewis, haveria, para essas economias, a possibilidade um “turning point” (ponto de virada) na trajetória que, se não alcançado, a economia do país poderia ficar simplesmente marcando passo, patinando. É o que acontece com o Brasil atual.
Lewis chega ao conceito da armadilha da renda média a partir de uma investigação sobre o que acontece na economia quando o seu setor mais moderno cresce de forma acelerada. Nessas situações, duas coisas tendem a acontecer: a produtividade do setor moderno cresce também muito rapidamente e a mão de obra migra dos setores mais atrasados para os modernos; da agricultura para a indústria, por exemplo, num caso mais clássico. Só que, o “turning point” de Lewis somente aconteceria caso a modernização ocorresse em todo o “tecido” econômico, e naturalmente também no social.
Em síntese, o setor moderno ditaria o ritmo de crescimento da economia, da produtividade e dos salários, alavancando um circuito virtuoso de crescimento. O Brasil conseguiu fazer isso em parte entre 1950 e 1980. Na sequência, amargou uma “década perdida” nos anos 80, gastou mais dez anos para fazer ajustes estruturais, entre os quais dar conta do problema da hiperinflação, na década de 90; surfou na superfície do boom das commodities, sem aproveitá-lo, na primeira década do século XXI, e finalmente, perdeu o “rumo” na década seguinte.
Será que ainda podemos acreditar num “turning point” da “renda média”? Certamente não se continuarmos presos a outra armadilha, a da política.