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Crônica

Partir

Somos criados entre fluídos, imersos nas águas. Começamos anfíbios, mas de uma hora pra outra, partimos. Deixamos de ser.

Publicado em 04 de Julho de 2020 às 08:00

Públicado em 

04 jul 2020 às 08:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Despedida
"Toda partida, ou toda separação, é uma operação psíquica complexa e fundante, ao mesmo tempo, porque sempre se trata de uma reconstrução" Crédito: Freepik
Uma vez dentro da concha sagrada que é a placenta, só existe uma possibilidade: partir. Sair, ganhar o mundo, descobrir a vida, enfim. Imagine que para um bebê nascer é preciso um primeiro golpe, um ataque àquela estrutura que o acolheu, protegeu e nutriu por nove meses a fio. O chute na parede no útero da mãe é um impulso automático, necessário, para ser parido. Uma ajuda, uma escolha pela vida de si mesmo.
Mas, como bem se sabe, depois do rompimento deste primeiro elo fundamental, o que se apresenta na vida é uma série de consecutivos rompimentos. Porque, quer queira, quer não, são as partidas que nos constituirão. Lembra? Depois de nascer acontece quase uma segunda gestação, porque amamentar é um elo de nutrição afetiva, constitutiva, libidinosa, amorosa e vital, para além dos orifícios –– bicos dos peitos, boca, olhos, narizes –– um retorno à simbiose, ao fusionamento, é tão intensa, que confunde absolutamente. De modo de partir, separar, tornar-se fundamental, novamente.
Novo ataque, involuntário. Pode ser uma mordidinha no bico do peito, pode ser um desinteresse súbito, pode ser de inúmeras maneiras. Fato é que na medida em nos reconhecemos separados do grande outro –– esse que nos apresenta a nós mesmos usando o espelho –– engatinhamos, ficamos de pé sozinhos e descobrimos a linguagem. Depois balbuciamos as primeiras vontades e, pouco a pouco, descobrimos que estamos partidos de fato: eis a dolorida e fundamental fórmula do crescimento.
"Estou mas não estou no outro..." –– diz a psicanálise.
E assim são também todos os outros relacionamentos. Uma tentativa de novo fusionamento, uma fantasia real, libidinosa, vital, maravilhosa (ou não) que transfira ao outro o núcleo do indizível sobre mim mesmo. Uma nova tentativa de atualizar a mecânica que dirige ao outro a possibilidade de revelação de algo sobre mim. Acontece que, como bem sabemos, eis a raiz da angústia. Porque aquilo que se revela de mim, encosta no insuportável de mim. De modo que quanto mais profunda a relação, mais dolorida a revelação do anti-ideal de eu. Puxado mesmo.
Razão pela qual toda partida, ou toda separação, é uma operação psíquica complexa e fundante, ao mesmo tempo, porque sempre se trata de uma reconstrução. Um trabalho do lado de dentro. Uma reparação de nós para nós mesmos. Uma re-invenção do simbólico. Um lamber de ferida em nome do amor a própria sobrevivência.
Dito isso, chego ao ponto: precisamos desenvolver a disposição e a habilidade para partir sem grandes estragos. Sem destruir os navios, sem incendiar a própria morada. E perceber o quanto antes que a lógica da vingança é uma perda de energia e de tempo. Da mesma forma, recalcar os sentimentos também não dá certo; moralizar ou julgar os afetos tampouco resolve.
A cada partida, ou a cada separação é preciso sentar-se no pier, colocar os pés na água e dar colo ao amor, dar colo ao ódio, escutar o que cada um tem a dizer e aprender. Seja para construir um barco novo, seja para entrar na próxima embarcação que aparecer.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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