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Crônica

Um golpe sem tanques na rua

Refiro-me à chegada ao mercado dos festejados aparelhos de ar condicionado. Uma dádiva de Deus para os milhares de fiéis que se acotovelavam nos templos católicos, principalmente aos domingos

Publicado em 03 de Dezembro de 2023 às 00:30

Públicado em 

03 dez 2023 às 00:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Crédito: Amarildo
Desde aqueles tempos em que as frutas de nossos pomares nem sonhavam em se oferecer nas lojinhas de hortifruti, que golpistas já rondavam nossas casas, nossas vidas, nossos hábitos. Não me refiro a homens armados, com fúria no olhar, avançando sobre nós sem pena e sem dó. O golpe a que me refiro era protagonizado por homens sem farda, sem o rigor da obediência cega e sem o temor do castigo.
Falo de um golpe pacífico, urdido à nossa revelia, mas que, por incrível que possa parecer, tinha a intenção de melhorar nossas vidas. Não, não estou louco. Mas antes que me levem para uma clínica psiquiátrica, embrulhado numa camisa de força, apresso-me em esclarecer os fatos.
O que vou relatar aqui parece uma brincadeira, uma piada, uma asnice. Mas é coisa séria. Refiro-me à chegada ao mercado dos festejados aparelhos de ar condicionado. Uma dádiva de Deus para os milhares de fiéis que se acotovelavam nos templos católicos, principalmente aos domingos. As naves lotadas lembravam o temido purgatório, tal era o calor no recinto.
No verão, então, uma antessala do inferno. Reconheço a vitória dos golpistas na intenção de dar uma dura nos termômetros. Mas, convenhamos, foi inegavelmente uma atitude ditatorial. Certamente nenhum católico, exausto de tanto se abanar, pediu em suas orações por tal invenção terrena que, posando de solidária, tinha mesmo como alvo principal aquecer a indústria e o comércio.
Tudo bem que saímos ganhando com esse sopro polar, mas tal golpe em nossos costumes arrancou das mãos das mulheres um dos mais icônicos símbolos do glamour feminino: o leque. A grande maioria das mulheres, enquanto rezava, se abanava com enorme devoção durante as missas.
Mas de uma hora para outra todas elas se viram de mãos abanando. Vazias. Sem dúvida, um terrível e covarde golpe imposto à mulher elegante. Agora só lhe restava rezar, rezar e... mais nada. Ficaram com aquela sensação de Sinhá Mariquinha cadê o frade. Quer dizer, cadê o leque.
Esses argentários golpistas também apontaram suas máquinas calculadoras para os homens. Da noite para o dia, sem nenhuma consulta e sem aviso prévio, esses malditos Patinhas arrancaram, sem que nos déssemos conta, nossas folgadas cuecas de algodão e, em troca, nos impuseram essas malditas cuequinhas elásticas, responsáveis por decretar uma convivência mais apertada entre nossas partes e nossas coxas Quando é verão e andamos ao sol, nossas coxas se aquecem e repartem o seu calor com o nosso centroavante e seus dois gandulas.
Apesar do covarde golpe contra as mulheres e seus leques, o bom humor de algumas delas se divertia espalhando historinhas engraçadas sobre os bons tempos em que se abanavam com fervor. Numa dessas chacotas contava-se que durante a missa era possível saber o estado civil das mulheres, pela velocidade no abanar.
A mulher de meia idade, feliz no casamento, se abanava num compasso binário, abusando da empáfia e, orgulhosa e metida, repetia baixinho: “Deus é justo! Deus é justo!”
A lerda viúva amargurada, abanava-se chorosa: “Eu tive, mas Deus o levou, eu tive mas Deus o levou...”
Já as mocinhas casadoiras, sempre sapecas, impunham ao leque um abano frenético e não se cansavam de repetir o mantra da esperança: “Não vejo a hora! Não vejo a hora! Não vejo a hora!...”

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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