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"Não gosto do Brasil. Eu gosto é da Brasilidade"

Historiador e pesquisador da cultura popular   afirma que o  país não é pacífico e muito menos tolerante:  "O Brasil é um empreendimento de ódio"

Públicado em 

21 out 2019 às 06:00
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Frequentador de botequins, rodas de samba e terreiros, o historiador, professor e escritor carioca Luiz Antônio Simas não apenas pesquisa a cultura popular - ele a vivencia no dia a dia. Autor de 18 livros e ganhador do Prêmio Jabuti de livro do ano de não-ficção em 2017, o orgulhoso botafoguense, nesta entrevista, fala sobre encruzilhadas, a ação da polícia e o papel do Estado na cultura e comenta a tese de que somos uma nação cordial. "Nós somos flor e faca, chibata e baqueta de bater no tambor. Vivemos essa experiência civilizatória de barbárie e beleza o tempo todo. Há um Brasil boçal, violento, racista, intolerante, misógino, terrível."

No começo deste ano, você publicou nas redes sociais um texto em que dizia que o seu país não é o dos gabinetes oficiais, das pompas do poder. Qual é o Brasil real, autêntico?

Não sei qual é o Brasil autêntico. Desconfio das identidades fixas. Acho que há embates. Escrevi certa feita que tenho pouquíssimo interesse pessoal no Brasil oficial. Não gosto do Brasil; é mais honesto dizer. Eu gosto é da Brasilidade, essa comunidade de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras, contradições, naufrágios, ilhas fugidias, identidades inviáveis, subversões cotidianas, voo de arara e picada de maribondo, saravá e samba. Coisas que o Brasil, o Estado colonial brasileiro delimitado em marcos territoriais, a burocracia, a República, como a Monarquia, odeiam. O Brasil é um empreendimento de ódio. A Brasilidade está na arte de viver na síncopa, no drible, na dobra do tambor, na oração dos romeiros, na dança lenta de Oxalufã, nas delicadezas do Reisado, nas rodas de cirandas, nas oferendas do Divino, na suavidade dos sons bonitos, no esporro dos tambores das matas e cidades, na imponência calada das imensas gameleiras, nas salas de aula, nos recreios, nos terreiros. O Brasil tem verdadeiro horror da Brasilidade, essa bruma incerta que une os marujos da nau sem rumo, a filha das putas, dos fodidos, dos lanhados, dos exterminados, dos encantados, contra o vento, contra o rei, contra a lei, contra o altíssimo, contra a foice, o facão, o canhão e o arado.

Qual o papel das manifestações populares em momentos de crise como o atual?

Não sei. Não sou exatamente um ativista ou analista político que consiga estabelecer isso. De toda forma, acho que a sociedade mobilizada, a criação de redes que atuem, inclusive, na micropolítica, é fundamental.

Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura e cortou verbas para o setor. Dá pra fazer cultura sem apoio oficial?

O Estado não tem que dirigir a cultura, mas tem a obrigação de dar condições, inclusive materiais, para que as manifestações culturais possam vicejar a partir da força dos territórios praticados e como elementos aglutinadores da vida comunitária. Não consigo conceber um poder público que não atue nesse sentido. É um disparate.

As religiões de matriz africana estão sendo vítimas de ataques de grupos neopentecostais. Esse fenômeno derruba a tese de que somos uma nação pacífica e tolerante?

Sim. Não somos um país pacífico e muito menos tolerante. Há bolsões de tolerância e cordialidade que convivem com a violência, o racismo estrutural, o legado do colonialismo. Não vejo como encapsular o Brasil em uma definição fechada. Nós somos flor e faca, chibata e baqueta de bater no tambor. Vivemos essa experiência civilizatória de barbárie e beleza o tempo todo. Há um Brasil boçal, violento, racista, intolerante, misógino, terrível. Joaquim Nabuco falava que acabar com a escravidão seria fácil. Acabar com a obra da escravidão seria dificílimo. Nos somos filhos disso: da obra da escravidão.

Em recente palestra no Museu Vale, em Vila Velha, você apontou as encruzilhadas como a luz do fim do túnel, o local por excelência do encontro, da tolerância entre os diferentes. Onde estão as encruzilhadas no Brasil??

Nas experiências cotidianas, nas ruas que insistem, nas experiências de inventar a vida na escassez. Mas estão sufocadas pela normatização do horror e do medo da alteridade. Precisamos, na verdade, construir essas encruzilhadas.

Você mora na zona norte do Rio, região conflagrada pela violência. Como você avalia a política de segurança do governador Wilson Witzel?

Não é política de segurança. É política de extermínio. O governador opera na lógica do genocídio. Ele é um capataz da morte.

Em recente postagem nas redes sociais, você afirmou que a Polícia Militar foi criada para matar e morrer e nesse sentido é uma das instituições mais bem-sucedidas do Brasil: mata e morre. A PM deve acabar ou ser reformulada?

Como historiador, faço o diagnóstico, mas não somos – os historiadores – bons em fornecer as terapias. Acho que o Brasil precisa refundar a própria ideia do que deve ser uma polícia. O problema é que a PM vem cumprindo bem a missão histórica que lhe foi dada: defender a propriedade, confinar pretos e pobres, matar e morrer. Não é deformação da função. Ela foi criada pra isso.

Qual a escola de samba que deve se destacar no Carnaval de 2020? Algum enredo vai causar polêmica?

Aposto na Grande Rio, com um enredo sobre Joãozinho da Gomeia, famoso pai de santo baiano que se radicou em Caxias, na Baixada Fluminense. Gostei muito do tratamento que o samba da Mangueira deu ao instigante enredo da escola. A Portela afirma um Rio tupinambá talhado para a guerra e a resistência. Tuiuti tem um enredo muito bonito sobre o Rei Sebastião e o santo padroeiro do Rio. Gostei muito do samba da Unidos da Tijuca. O Carnaval vai mal de grana e muito bem de criatividade. Talvez esteja tão bem no campo da criatividade exatamente porque a grana tá curta.

Você diz que é botafoguense porque não tem uma visão triunfalista. Você tem vocação para ser sofredor?

Pelo contrário. O botafoguense tem o couro curtido pelas dificuldades. Quem sofre é o obcecado pela vitória, quando ela não vem. Minha vocação é a de continuar fazendo as coisas, amando e construindo mesmo que o triunfo não ocorra. Não somos sofredores. Somos céticos e místicos ao mesmo tempo, o que parece um paradoxo. Pessimistas na avaliação, mas dotados de um ardoroso desejo de continuar apostando que virá alguma futuro.!

Leonel Ximenes

Iniciou sua história em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De lá para cá, acumula passagens pelas editorias de Polícia, Política, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Também atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 é colunista. É formado em Jornalismo pela Universidade Feedral do Espírito Santo.

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