Não sei qual é o Brasil autêntico. Desconfio das identidades fixas. Acho que há embates. Escrevi certa feita que tenho pouquíssimo interesse pessoal no Brasil oficial. Não gosto do Brasil; é mais honesto dizer. Eu gosto é da Brasilidade, essa comunidade de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras, contradições, naufrágios, ilhas fugidias, identidades inviáveis, subversões cotidianas, voo de arara e picada de maribondo, saravá e samba. Coisas que o Brasil, o Estado colonial brasileiro delimitado em marcos territoriais, a burocracia, a República, como a Monarquia, odeiam. O Brasil é um empreendimento de ódio. A Brasilidade está na arte de viver na síncopa, no drible, na dobra do tambor, na oração dos romeiros, na dança lenta de Oxalufã, nas delicadezas do Reisado, nas rodas de cirandas, nas oferendas do Divino, na suavidade dos sons bonitos, no esporro dos tambores das matas e cidades, na imponência calada das imensas gameleiras, nas salas de aula, nos recreios, nos terreiros. O Brasil tem verdadeiro horror da Brasilidade, essa bruma incerta que une os marujos da nau sem rumo, a filha das putas, dos fodidos, dos lanhados, dos exterminados, dos encantados, contra o vento, contra o rei, contra a lei, contra o altíssimo, contra a foice, o facão, o canhão e o arado.