Até a origem da palavra vitamina (vita é vida em latim) ajuda a criar uma associação com substâncias que tornam a vida saudável. Hoje virou mania tomar complexos vitamínicos, manipulados, importados ou comprados. Também são comuns extensos exames de vitaminas e minerais que resultam em complexas receitas de reposição.
Nos EUA, dados de uma pesquisa feita na década passada (NHANES, 2011-2014) mostraram que 52% dos americanos usavam algum suplemento vitamínico e 31% usavam até suplementos múltiplos de vitaminas e minerais. Essa situação agravou-se com a pandemia, com uso indiscriminado de vitaminas de “A a Z”.
É uma indústria muito rentável, de ganhos astronômicos. Em 2021, apenas o mercado dos EUA gastou 50 bilhões de dólares em suplementos dietéticos, e essa indústria gastou 900 milhões de dólares em marketing. O apelo é óbvio. Na teoria, vitaminas e minerais têm efeitos antioxidativos e anti-inflamatórios que vão prevenir mortes cardiovasculares e câncer. Como é trabalhoso ter uma alimentação saudável com frutas legumes e verduras, as pílulas de vitaminas “perdoam” os excessos e erros do dia a dia. Seria ótimo se fosse simples assim.
Existem situações específicas com benefício demonstrado. Mulheres que querem engravidar tem no uso de folatos o auxílio na prevenção de defeitos no tubo neural de bebês, como o uso de vitamina D em muitas pessoas que têm escassa exposição à luz solar ajuda na prevenção da osteoporose. Pacientes que fizeram cirurgia bariátrica, com distúrbios de alimentação ou com doenças intestinais exigem suplementos vitamínicos, bem como em outras situações bem definidas. Mas são casos que não justificam uso indiscriminado.
Em junho agora, o prestigiado JAMA publicou uma recomendação oficial da US preventive services task force (painel independente de especialistas em saúde preventiva), ressaltando não haver nenhuma evidência de benefícios no uso indiscriminado de vitaminas e sais minerais na prevenção de câncer e doença cardiovascular. Em alguns casos os especialistas alertam para riscos. O uso indiscriminado de beta caroteno (precursor da vitamina A) e da vitamina E são expressamente contraindicados. Enfim, cada vez fica mais claro que o uso generalizado de pílulas e suplementos é ótimo para a saúde financeira das empresas que as produzem.