Em julho de 2020, no primeiro semestre da pandemia, uma das mais importantes revistas científicas médicas do mundo criou uma força-tarefa, envolvendo dezenas de especialistas, de Harvard a Universidade de Columbia, cientistas europeus, asiáticos, africanos, chamada The Lancet Commission, com a finalidade de estudar a pandemia e sugerir lições para o futuro, considerando a crise sanitária emergente. Agora em setembro foram publicadas suas conclusões. Vale a leitura.
O impacto da pandemia foi desigual nas várias regiões do planeta. Uma publicação do Global Health Security Index de 2019 ranqueava os Estados Unidos em primeiro e o Reino Unido em segundo lugar como os países mais preparados na América e na Europa em termos de estrutura e capacidade de resposta a epidemias. Nova Zelândia estava em 320º lugar.
Na vida real, com a pandemia de Covid-19 não foi bem assim. O número oficial de mortes, no mundo, era de 6,9 milhões em junho de 2022. O IHME (Institute for Health Metrics) estima, pelo menos, 17 milhões. A região com melhor desempenho foi a do Pacífico Ocidental, com 125 mortes por milhão de pessoas. Austrália, Nova Zelândia, Camboja, Hong Kong, Cingapura, Vietnam e a própria China desenvolveram uma estratégia muito eficiente que, de certa forma, fora testada antes com a epidemia de SARS em 2003.
Ela consistiu em testagem maciça e ágil, com detecção e isolamento de doentes e contactantes, uso de QR códigos para acompanhar movimentação das pessoas, com controle rigoroso. O surgimento da Ômicron, com uma taxa de contágio muito mais elevada, tornou essa estratégia obsoleta, mas esses países já tinham vacinado maciçamente sua população. Apenas a China persistiu com estratégia de contenção absoluta, com óbvios prejuízos à sua economia.
A segunda região do planeta com menor número de mortes foi a região africana, com 165 óbitos por milhão de habitantes. Isso intrigou pesquisadores, mas dois fatos explicam esse achado: em primeiro lugar a subnotificação. O IHME estima que as mortes são na verdade dez vezes mais, de 1774 por milhão de habitantes. Ainda assim, muito abaixo da Europa e Américas.
O outro e principal motivo é idade média do cidadão africano de apenas 18 anos. Também quase não há obesidade no continente africano, e as comorbidades têm menor peso nessa idade. A idade média dos países asiáticos com melhor performance é de 30 a 35 anos. A terceira região com menor mortalidade foi o Sudeste Asiático, com 366 óbitos relatados por milhão e 2549 óbitos estimados por milhão.
O país com maior subnotificação de óbitos foi a Índia, que impôs um duro lockdown no início da pandemia. No entanto, relaxaram todos os controles no início de 2021, quando coincidentemente surgiu a variante delta, que fez a festa em festivais religiosos, eleições e toda sorte de aglomerações.
Logo houve falta de oxigênio e menos acesso a leitos hospitalares, corpos foram cremados ou lançados ao Ganges. A Índia relatou 250.000 mortes, mas estima-se no mínimo 10 vezes mais. As piores regiões do mundo em desempenho foram a Europa, com 4144 óbitos por milhão, e as Américas com 4051 óbitos por milhão de habitantes. Mas isso é assunto para a próxima crônica.