O primeiro antibiótico para uso humano, a penicilina, foi descoberto de forma acidental pelo médico escocês Alexander Fleming em 1928. Ele ganhou o Nobel da Medicina em 1945, no pós-guerra, quando ficou claro o potencial dessa droga de salvar vidas de tantos soldados feridos.
Apenas uma década depois, já em meados dos anos 50, a resistência à penicilina já era um grave problema. Na década de 30, as sulfas foram descobertas e assim, sucessivamente, novas classes de antibióticos. Num jogo de gato e rato, à medida que novos antibióticos são largamente usados, a resistência bacteriana logo aparece.
Um importante estudo publicado no The Lancet no ano passado mostrou que a resistência bacteriana mata mais pessoas por ano que qualquer outra doença infecciosa isolada, inclusive HIV, tuberculose ou malária. Uma em cada 8 mortes no mundo hoje está ligada às infeções bacterianas, na prática a segunda causa de morte após doença cardíaca.
Estudos do Banco Mundial analisam impactos econômicos da resistência bacteriana, projetando um gasto adicional em saúde de cerca de 1 trilhão de dólares em 2050. Como o acesso a tanto dinheiro é desigual, as mortes por bactérias multirresistentes são mais comuns em países de baixa renda, sendo hoje a África subsaariana o local de maior impacto. Apenas seis bactérias são responsáveis por cerca de 80% dos casos, com destaque para Escherichia coli e Staphyloccocus aureus. O leitor talvez conheça casos de infeção urinária e mesmo infecções banais resistentes a vários antibióticos.
Como a ciência pode enfrentar isso? Primeiro, combatendo o uso indiscriminado de antibióticos. A revista da Sociedade Americana de Infectologia (CID) publicou neste ano um trabalho relatando o aumento de uso de azitromicina em 360% no Brasil durante a pandemia de Covid-19.
O abuso de drogas sem efeito cobra seu preço. Mas o essencial é a pesquisa de novas drogas. E aí temos um enorme problema. Mais de 82% das pesquisas de novas drogas ocorreu até os anos 2000. Nas duas últimas décadas a indústria tem feito “recauchutagem” de antigas drogas. As grandes farmacêuticas definem o investimento em novos antibióticos como de risco e sem retorno. Afinal, antibióticos são usados por curtos períodos, e existe um consenso entre os especialistas para desencorajar seu uso extensivo com o objetivo de prevenir resistência.
Alguns estudiosos da área farmacêutica definem a pesquisa de novos antibióticos como uma “falha de mercado”. As vendas nem de longe compensam o extraordinário investimento necessário à pesquisa de uma nova droga, na faixa de bilhão de dólares. O Reino Unido e EUA estão estudando formas inovadoras de estímulo à pesquisa de novos antibióticos além da simples remuneração pela venda.
Estudos inovadores com bioinformática e uso de inteligência artificial para desenho de novas drogas são caminhos que vêm sendo tentados. Um grupo de pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, usando IA, fez o screening de 110 milhões de moléculas em três dias, descobrindo uma substância com propriedades antimicrobianas. Enquanto vivermos esse deserto de novas drogas, bom usar os antibióticos disponíveis com moderação.