A primeira reunião do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT sobre as eleições municipais de 2024 adotou como diretriz definir uma estratégia única pensando também na reeleição de Lula em 2026. Um dos integrantes do grupo foi claro: “Não há dúvidas de nossa parte de que o candidato será Lula, e por isso o projeto de 2024 deve preparar o de 2026”.
No PL, partido de Bolsonaro, suas lideranças são unânimes em dizer que, mesmo sendo inelegível, o ex-presidente será o grande cabo eleitoral dos seus candidatos em 2024. “Se essa loucura (a inelegibilidade) acontecer, certamente elegeremos mais prefeitos porque a força da palavra do Bolsonaro crescerá”, disse o presidente do PL antes da decisão do TSE.
Essa convicção, certamente, decorre da recente pesquisa do Datafolha que constatou que 29% dos entrevistados se declaram “muito petistas” e 25% “muito bolsonaristas”. A pesquisa mensurou o posicionamento político dos eleitores partindo de uma escala onde 1 significa totalmente bolsonarista e 5 totalmente petista. Dentre os entrevistados, somente 20% se colocavam no centro da escala e 8% afirmaram não preferir nenhuma das designações.
Nesse cenário, não há como duvidar que os candidatos, na campanha do ano que vem, vão procurar apoios nos dois extremos. Haverá sempre um “candidato de Bolsonaro” e outro “de Lula”, repetindo, na grande maioria dos municípios, a polarização vivida pelo Brasil desde a segunda metade da década passada.
Tanto Lula quanto Bolsonaro, contudo, têm razões de sobra para se preocupar com os seus futuros políticos. Bolsonaro tem diante de si inúmeros outros processos – além do que concluiu pela sua inelegibilidade – que certamente irão prejudicar a sua imagem e podem levá-lo a responder por outros crimes.
Como qualquer líder carismático, sua força política é personalíssima, está nele próprio, sendo correto afirmar que isso nem sempre resulta em transferência automática de votos. As eleições de 2022 no Espírito Santo comprovaram isso: Bolsonaro teve 58,04% dos votos capixabas enquanto o seu candidato a governador Manato alcançou 46,20%.
Lula, por outro lado, tem contra si a idade avançada (em 2026 terá 80 anos) e o desgaste natural de quem está no poder. O presidente é contestado em várias áreas como a dos costumes, a do trabalho, a da reforma agrária e a da política internacional. A indicação do advogado pessoal de Lula para uma vaga no Superior Tribunal Federal foi reprovada por 55% dos brasileiros (só 22% concordaram), segundo pesquisa da empresa Genial/Quaest. As posições do presidente com relação às ditaduras da América Latina, entre s quais as de Cuba, Nicarágua e Venezuela, também enfrentam contestações que quase chegam à unanimidade.
Entre os pontos fortes de Bolsonaro está a sua inconteste liderança que entusiasma seus seguidores mesmo quando espalha fake news sobre o sistema de votação e divulga inverdades sobre as vacinas. Para os bolsonaristas, não importa que existam o escândalo das joias, os casos de rachadinha, os cheques de Queiroz, o contrabando de madeira ilegal, o garimpo que contamina os rios e os claros indícios de superfaturamento na compra de vacinas. Essas são, para eles, denúncias vazias turbinadas pela imprensa.
Lula, por outro lado, consegue arrastar multidões mesmo tendo sido condenado e preso, sendo a seguir eleito novamente presidente da República mesmo não tendo sido inocentado. É um líder nato, forjado nas bases sindicais do ABC paulista, que seduz boa parte dos brasileiros. Tal como os bolsonaristas, os lulistas ainda não acreditam que a Petrobras quase chegou à falência pelos desvios de recursos com fins políticos como chegou a ser comprovado pela Lava Jato. Aliás, os petistas não acreditam nem na Lava Jato, e nem nos bilhões de reais, surrupiados pela corrupção, que foram devolvidos por políticos e empreiteiros à Justiça.
Se assim é, temos que acabar nos conformando que, em 2024 – e provavelmente em 2026 –, estaremos mais uma vez condenados a optar por um dos extremos da política brasileira, sem qualquer outra alternativa que conduza o país a rumos diferentes dos que são defendidos por Lula e Bolsonaro.