Não foram necessários nem dois meses de governo petista para que o MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, retornasse à sua conhecida tática de invadir terras – não importa se produtivas ou não – para, supostamente, tentar ampliar a sua influência na administração federal. Foram “ocupadas” – como gostam de dizer os líderes do movimento – quatro propriedades, sendo três plantações de eucalipto da Suzano e uma fazenda em Jacobina, todas no Sul da Bahia.
E não foi só: a autodenominada Frente Nacional de Luta Campo e Cidade, nos primeiros dois meses do ano, promoveu “ocupações” no interior de São Paulo. Resultado: o total de 13 invasões de 2023 já representa mais da metade da quantidade de invasões registradas em 2022, que foi 25.
O dado confirma a previsão do líder do MST João Pedro Stédile que, no ano passado, disse que as mobilizações em massa dos chamados sem-terra iriam retornar caso Lula vencesse as eleições. Durante os oito anos do Governo Lula (2003-2010) a média de invasão de terras, segundo o Incra, foi de 246/ano.
Pelos números é possível perceber que a mobilização que visa às invasões de terras é, cada vez mais, um ato eminentemente político que, nem sempre, acontece pela real necessidade de provocar a distribuição de terra para quem deseja produzir. Acrescente-se ainda que são cada vez mais numerosas as informações de que boa parte das pessoas que participam das invasões estariam sendo recrutadas nas periferias das cidades sem qualquer vinculação direta com a área rural.
Ou seja, cada vez mais essas mobilizações estariam se afastando da concepção de que seriam movimentos legítimos de autênticos lavradores que estão sendo impedidos de produzir porque não têm acesso à terra.
As recentes invasões contribuíram também para desmontar o mito de que só são ocupadas pelos chamados sem-terra as propriedades improdutivas. Todas as propriedades invadidas no Sul da Bahia, no final de fevereiro, são produtivas. As plantações de eucalipto da Suzano são destinadas à produção de celulose, uma das mais importantes atividades econômicas do mundo, a silvicultura, que é incentivada em vários países do primeiro mundo como Canadá, Noruega e Finlândia. Só no Sul da Bahia, a Suzano é responsável pela geração de mais de 7 mil empregos.
As invasões de fevereiro acabaram frustradas porque a Justiça foi rápida na concessão das reintegrações de posse. E, além disso, respingaram seus equívocos no presidente da República que, na campanha eleitoral, garantia que os sem-terra não invadiam terras produtivas. Na entrevista que deu ao “Jornal Nacional”, durante a campanha, Lula desafiou: “Qual foi a terra produtiva que o sem-terra invadiu?”
Além de colocar uma saia-justa em Lula, o MST, com as invasões, deixou todo o governo federal em dificuldades: nem Lula nem seus ministros se posicionaram com clareza contra as invasões e, por isso, foram duramente criticados pela Frente Parlamentar da Agropecuária da qual faz parte a maioria dos parlamentares do Congresso Nacional.
Os ministros da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário se limitaram a dizer que iriam mediar um acordo com a Suzano, mas logo perceberam que isso não seria possível enquanto as ocupações não fossem desfeitas.
Das frustradas invasões de fevereiro, o MST e o governo poderiam tirar algumas conclusões. A primeira é a de que seria prudente avaliar se vale a pena retornar à prática das ocupações que tanto foi utilizada no passado. Afinal de contas, o Brasil de hoje não é o mesmo Brasil de 2003 quando Lula foi presidente pela primeira vez.
É preciso considerar que atualmente o Brasil vive um clima de radicalização política exacerbada que pode ser constatada na pequena diferença de votos que separou o presidente do segundo colocado nas eleições – 1,8% dos votos. Além disso, a maioria do atual Congresso Nacional não faz parte da base do governo como acontecia no passado.
É sinal que de lá certamente virá uma forte reação às ações de invasão de propriedades privadas. Por fim, governo e MST deveriam considerar que o agronegócio tem hoje uma dimensão três vezes maior do que há vinte anos, quando Lula exerceu o seu primeiro mandato, o que significa ter maior força política e econômica na arena das decisões nacionais.
No balanço final dos ganhos e perdas, as invasões de terra do final de fevereiro representaram um tiro no pé dos seus autores. Tão grande quanto o tiro no pé que marcou os vândalos que depredaram os prédios dos três poderes em Brasília no dia 8 de janeiro.