Passados os primeiros sete meses do governo Lula, é possível fazer um balanço dos seus movimentos iniciais e tentar avaliar as suas repercussões no meio político, econômico e social. A começar pelos bons resultados obtidos na área do meio ambiente, com o combate ao desmatamento e garimpo ilegais na floresta amazônica.
São positivas, também, as medidas que reduzem o acesso de civis a armas de fogo, o que representa um cavalo-de-pau na louca e irresponsável política armamentista de Bolsonaro. Acrescente-se ao rol de vitórias os avanços no combate à inflação e na redução do desemprego, e ao propósito – que todos esperamos que se torne realidade – de alcançar metas fiscais que equilibrem as contas públicas.
Mas nem só de avanços vive o governo Lula. Entre os pontos que podem ser mencionados como negativos estão as bobagens repetidas pelo presidente com relação à política externa, entre as quais o esforço feito para culpar a Ucrânia por ter sido invadida pela Rússia, e para tentar defender governos reconhecidamente ditatoriais como os de Maduro, na Venezuela, e Ortega, na Nicarágua.
Acrescente-se à lista de pontos negativos a ridícula campanha que faz o governo Lula contra a autonomia do Banco Central do Brasil. E, ainda, a prática do toma-lá-dá-cá, explicitada desde quando a quantidade de ministérios foi multiplicada – passando se 23 para 37 – e, mais recentemente, com a substituição de ministros e outros integrantes do segundo escalão tendo como único critério a indicação político-partidária (majoritariamente dos partidos que integram o Centrão fisiologista) sem minimamente considerar os interesses do país e a competência dos indicados.
É possível também perceber que alguns pontos negativos acabam por prejudicar os pontos positivos como, por exemplo, a briga de foice entre Lula e o presidente do Banco Central pela queda da taxa Selic, que tem como pano de fundo o debate em torno da autonomia do Banco Central.
Ao invés de Lula continuar brigando com Roberto Campos Neto, ele deveria reconhecer que é graças à conduta técnica do Banco Central que a inflação se reduziu e se aproximou da meta. O que, aliás, já abriu caminho para uma redução gradativa da taxa Selic sem o açodamento de Lula.
É esclarecedor que a agência Fitch, ao justificar a elevação da nota de crédito do Brasil de BB- para BB – o que colocou o país mais próximo de obter o grau de investimento –, citou como um dos motivos da decisão a autonomia do Banco Central. O grau de investimento é o selo de bom pagador, que atesta a capacidade do país em honrar os seus compromissos. Ou seja, o país passa a estar mais próximo de ser considerado um porto seguro para os investidores.
Outra interferência negativa que põe em risco um dos pontos positivos do governo é a prática do toma-lá-dá-cá que tem assumido proporções gigantescas e perigosas. A distribuição de cargos públicos sem considerar os interesses do país, além de reviver os tempos nebulosos do mensalão e do petrolão – abrindo espaços para a prática da corrupção –, podem comprometer os bons resultados até agora obtidos na economia. Isso ocorreria caso Lula dê abrigo no governo – como parece que vai dar – a pessoas que notoriamente se colocam contra a política econômica hoje comandada por Fernando Haddad, e decida atender ao apetite do Centrão e dos seus amigos mais chegados por cargos estratégicos nas estatais, inclusive a Petrobras.
Aliás, é na área da economia que estão os pontos mais sensíveis que certamente definirão o sucesso ou insucesso do governo Lula. Se os indicadores continuarem favoráveis, como a inflação baixa e a redução do desemprego, o governo desfrutará de um julgamento positivo junto à população. Mas se, ao contrário, a política da gastança desgovernada – como sugerem setores do PT e o ex-ministro Mantega – vier a prevalecer, a inflação retomará a trajetória de alta e a desaceleração da economia e o desemprego virão a reboque.
É provável que só o tempo permitirá saber se, no governo Lula, os acertos superarão os erros ou se, ao contrário, os pontos negativos suplantarão os positivos. Enquanto isso fica a torcida para que o Brasil – que infelizmente já desmontou todo o esquema de combate à corrupção concebido com tanta dificuldade na Operação Lava Jato –, não venha também retomar o caminho do desequilíbrio fiscal e do desvio irresponsável do dinheiro público que tantos prejuízos causaram – e poderão ainda causar – aos brasileiros.