A pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 3 de abril, com dados coletados entre 27 e 31 de março, demonstra que há um enorme vazio na seara política, a ser preenchido por quem se afaste dos extremos da esquerda (lulista) e direita (bolsonarista). Os dados são eloquentes: 44% dos entrevistados têm medo do retorno de Bolsonaro à presidência da República e 41% têm medo da permanência de Lula no poder.
Esses percentuais somados aos 6% que têm receio das duas hipóteses levam à conclusão de que 50% não querem a volta de Bolsonaro e 47% não querem a permanência de Lula. E mais: 62% consideram que Lula não deveria se candidatar a um novo mandato.
Em outras palavras, o Brasil está cansado dessa polarização ridícula que, já há duas eleições, condena o brasileiro a escolher entre os dois extremos. De um lado, uma direita radical negacionista, antivacina, atrasada, que vê um comunista em cada pessoa que pense diferente, antidemocrática porque louva a ditadura de 1994 e sonhava com um golpe de Estado para manter Bolsonaro no poder, mesmo que ele tenha sido derrotado nas urnas (urnas amaldiçoadas quando trazem a derrota, mas louvadas quando registram a vitória).
De outro lado, uma esquerda radical, igualmente atrasada, que se recusa a acompanhar as transformações do mundo do trabalho, que endeusa os ditadores de Cuba, Venezuela e Nicarágua, que insiste em defender uma pauta de costumes rejeitada pela maioria dos brasileiros, e, como a extrema direita, também sonha em se perpetuar no poder.
Basta lembrar a identidade de posições de Lula e Bolsonaro, com relação à invasão da Ucrânia pela Rússia, para perceber como os extremistas acabam se assemelhando em conceitos como os de democracia e soberania relativas.
Outro dado da pesquisa Genial/Quaest que revela a grande dimensão desse vazio é o resultante das respostas dadas à pergunta sobre como os eleitores brasileiros entrevistados se definiam: 19% se classificaram como “lulistas” e 12% como “bolsonaristas”. Ou seja, apenas 31% se consideram extremados na polarização, enquanto 12% se consideram “de esquerda, mas não lulistas” e 21% “de direita, mas não bolsonaristas”.
É possível também afirmar que a rejeição os extremos não é de hoje. A eleição de Bolsonaro, em 2018, decorreu em grande parte do desgaste do PT, cujos malfeitos foram escancarados pela Operação Lava Jato e pelo impeachment de Dilma Rousseff, defenestrada da presidência por causa do seu desgoverno e das suas pedaladas.
A rigor, Bolsonaro conseguiu se apresentar como o candidato anti-PT e representar a condenação de Dilma. Com Lula preso, não foi difícil para Bolsonaro assumir o papel de líder (ou “mito”), após décadas como deputado do chamado baixo clero. Já a eleição de Lula, em 2022, se seguiu à desastrada conduta de Bolsonaro durante a pandemia, conduta essa que ainda hoje é o principal motivo da rejeição ao seu nome.
Mas, seja em 2018, seja em 2022, as forças posicionadas mais ao centro político – e, por favor, não vamos confundir “centro” com “Centrão” – não foram capazes de gestar lideranças que pudessem se contrapor, com musculatura, às extremas direta e esquerda. Em 2022, o medo de serem atropelados pelo trator anticorrupção da Lava Jato fez com que os políticos de todos os matizes se unissem para torpedear a candidatura de Sérgio Moro, fazendo desaparecer a última esperança de ser gestada uma candidatura fora dos dois extremos. O PSDB, em decadência, não conseguiu emplacar um nome com chances de vitória e outras tentativas, como a de Simone Tebet, não chegaram a decolar por falta de capilaridade nacional.
A pesquisa Genial/Quaest não chega a ser clara na indicação de alternativas eleitorais, com chances de vitória, fora as de Lula e Bolsonaro. Entretanto, o desgaste crescente do governo Lula e a inelegibilidade de Bolsonaro fazem surgir um campo enorme para o aparecimento de outros nomes que possam pôr um fim à polarização atual, abrindo – quem sabe? – novas perspectivas para o futuro político do nosso país.