Que Lula não é, e nem nunca foi, o nome ideal para promover a pacificação política do país, todos nós sabíamos. Nem Bolsonaro seria esse nome pois foi ele quem tensionou a corda da política o mais que pode, todos os dias do seu mandato. Cada um a seu modo levou o país à atual divisão entre os dois extremos, o da direita (Bolsonaro) e o da esquerda (Lula) que dominou as eleições presidenciais do ano passado.
Contribuiu para isso a incompetência das forças políticas do centro democrático de minimamente construir uma alternativa eleitoral aos dois extremos. Sergio Moro poderia ter sido esse nome se não fosse torpedeado por todos os lados já que é odiado pelos lulistas (que não o perdoam pela prisão de Lula), pelos bolsonaristas (que não o perdoam por ter se recusado a proteger a família Bolsonaro das acusações de corrupção), pelo Centrão (que não o perdoa pelos processos e condenações de seus integrantes pela Lava Jato) e por parte do Judiciário (que chegou ao cúmulo de, baseado em gravações ilegais, considerá-lo suspeito nos julgamentos e anular as condenações da mais eficaz iniciativa de combate à corrupção no Brasil).
Outro nome que poderia se contrapor aos dois extremos nas últimas eleições seria o de João Doria que, apesar de ter a seu favor o mérito de viabilizar o início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil (mesmo com a oposição do governo federal) foi minado pelo seu próprio partido, o PSDB, que deslegitimou as prévias por ele mesmo convocadas para a escolha do seu candidato.
Assim como aconteceu com Moro e Doria, todos os demais nomes cogitados como alternativa aos extremos radicais – Eduardo Leite, Tasso Jereissati, Felipe Dávila, Simone Tebet – foram desidratados pelo “fogo amigo” dos seus próprios partidos. Ciro Gomes não entra na lista porque nunca conseguiu deixar de ser um individualista e radical à sua maneira.
Quando a campanha eleitoral se afunilou colocando os dois radicais – Lula e Bolsonaro – como favoritos já era possível prever que fosse quem fosse o vencedor o país continuaria dividido. Que qualquer um dos dois teria dificuldade de “governar para todos”, mesmo sendo praxe que essa promessa esteja presente em todos os discursos de posse.
Eleito Lula, seus primeiros movimentos na arena política pareciam direcionados para a redução das tensões que separavam esquerda e direita. Com habilidade e atraindo os votos de praticamente todos os partidos, Lula conseguiu aprovar a PEC da Transição, garantindo recursos para cumprir parte de suas promessas no primeiro ano de mandato (e, é claro, também para garantir o dinheiro das emendas parlamentares). Mas, logo em seguida, emergiram os pontos de atrito entre os dois extremos que se encarregaram de afastar para longe as possibilidades de pacificação nacional.
De um lado, Lula – talvez por confiança excessiva – passou a fazer afirmativas polêmicas como as críticas à austeridade fiscal, às privatizações, ao empresariado – notadamente o do agronegócio – e ao anunciar a reabertura da embaixada na Venezuela e o retorno dos financiamentos do BNDES para obras no exterior. Chegou a chamar de “golpe” o impeachment de Dilma Rousseff, enfurecendo a maioria da classe política que apoiou o afastamento da presidenta. Se isso não bastasse, a Agência Brasil, do governo, caiu no ridículo de passar a adotar a linguagem neutra em um comunicado, ao se referir a “parlamentares eleites”.
De outro lado, os bolsonaristas radicalizaram e, não satisfeitos em acampar na porta dos quartéis reivindicando intervenção militar, ultrapassaram todos os limites do bom senso ao invadir e depredar os prédios do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal no dia 8 de janeiro. O resultado é que 1,4 mil deles foram presos e processados pelos atos antidemocráticos. Sem falar dos que estão sendo acusados de serem os financiadores dos atos criminosos.
E assim, divididos em duas partes extremas e radicais, caminharemos ainda por muito tempo, sabe Deus até quando. Resta esperar que o tempo, que é o senhor da razão, possa, aos poucos, trazer o país de volta a um clima minimamente civilizado de vida política. E que situação e oposição aprendam a se conduzir com educação política, convivendo de forma pacífica sem agressões físicas e tentativas tresloucadas de golpes de estado parta de onde partirem.