A filiação de Sergio Moro ao Podemos, mesmo sem ter sido anunciada oficialmente a sua pré-candidatura à Presidência da República, provocou imediata reação dos principais concorrentes ao posto. Fernando Haddad, homem de confiança de Lula, disse que Moro “não tem condições morais de disputar o que quer que seja”. Ciro Gomes afirmou que Moro “quer se disfarçar de político para resolver suas enormes contradições”. Já Bolsonaro quis criticar, mas acabou elogiando: “Ele não aprendeu nada enquanto esteve no governo”.
As reações sinalizam que a possibilidade de Moro disputar as eleições para presidente da República – agora mais evidente após o discurso feito na solenidade de sua filiação a um partido político – assusta os adversários. É uma indicação de que seu nome incomoda e que, por isso, será atacado com cada vez maior intensidade por lulistas, bolsonaristas e pelos antilavajatistas incrustados nos partidos e nos Três Poderes da República. É uma artilharia e tanto a desafiar um provável pré-candidato que tem ainda diante de si o desafio de não inviabilizar uma futura união das várias tendências em que se divide hoje a chamada terceira via.
Moro, no início do mês, enfatizou algo que deixa aberta a possibilidade de viabilização de uma candidatura única na terceira via: afirmou que não via problema em abrir mão da sua provável candidatura para apoiar outro candidato da terceira via que tivesse maiores chances de vitória. E no seu discurso de filiação ao Podemos propôs o fim da reeleição para cargos do Executivo. Esses dois pontos podem livrar Moro de ser atacado também pelos outros pré-candidatos além de Lula, Bolsonaro e Ciro.
A primeira pesquisa conhecida na semana de filiação de Moro, feita pela Quaest, serviu como um afago para o Podemos. Moro aparece com 8% da intenção de votos, mais do que os 6% atribuídos a Ciro Gomes. Trata-se de um percentual bem menor do que os alcançados por Lula (48%) e Bolsonaro (21%), mas sinaliza uma possibilidade real de crescimento, já que 25% dos pesquisados também responderam que não votam “nem Lula e nem em Bolsonaro”. São números que justificam as preocupações dos críticos do ex-juiz.
O discurso de Moro na solenidade de filiação foi criticado por alguns analistas políticos por ser “cheio de obviedades”. Mas ser óbvio, em uma campanha eleitoral, pode ser positivo se for considerado que a unanimidade dos brasileiros de bom senso se revolta com a corrupção, condena os desmatamentos e as queimadas ilegais da Amazônia, é favorável às energias limpas e à criação de uma economia verde, sustentável e de baixo carbono, e deseja a redução das desigualdades, a multiplicação dos empregos e serviços de saúde, educação e segurança de qualidade.
Com tantos inimigos – que se situam nas extremas esquerda e direita, passando pelo Centrão e ocupantes de posições no Judiciário e Ministério Público – não será simples a trajetória da candidatura de Moro se de fato ela for confirmada. Mas não deixa de ser positiva para a democracia a maior pluralidade no debate político, que certamente virá com a participação de uma outra voz que se contraponha aos grupos que se tornaram hegemônicos na política brasileira nas últimas décadas.